O mundo não é redondo e o Atlântico (já) não é o centro

Quem comprar um mapa do mundo em Portugal verá a imagem familiar do oceano Atlântico no centro e o Pacífico junto às margens. Quem comprar o mesmo mapa no Japão verá que no centro está o Pacífico e o Atlântico está nos cantos. No primeiro caso, Portugal está no centro e no segundo caso está na periferia.

Convirá deixar claro que a descrição anterior reflete a dificuldade de se projetar uma esfera (o mundo) num plano (uma folha de papel) e não qualquer adesão às fantasias que sobrevivem na internet sobre a forma da Terra. Mas reflete também a transição do centro estratégico, político e económico do século XX para o século XXI.

Durante séculos, várias civilizações surgiram e entre a Mesopotâmia, a Grécia e Roma, o Egito, a China, o Japão, a Índia, a Etiópia ou as civilizações da América Central e do Sul, o mundo tinha vários centros, nenhum verdadeiramente dominante. Os Descobrimentos Marítimos estabeleceram ou reforçaram elos de ligação e conhecimento e as globalizações que se seguiram foram aproximando os vários mundos, estabelecendo um centro e várias periferias. E até há pouco tempo, a centralidade atlântica aparecia relativamente bem representada nos mapas que conhecemos melhor.

No entanto, o mundo está a mudar. A atenção dos Estados Unidos voltou-se para a costa oeste ainda durante a Administração Obama e a União Europeia apresentou recentemente a sua nova Estratégia para o Indo-Pacífico. Londres, Washington e Camberra estabeleceram uma nova parceria de segurança no Pacífico. Na Europa, o Brexit e o ressurgimento da Rússia marcam a continentalização da União Europeia e, finalmente, segundo o Fórum Económico Mundial, das 29 megarregiões económicas do mundo, 12 estão no Pacífico e as restantes espalhadas pelo resto do planeta, sendo que das cinco que estão na Europa só Londres-Manchester que, como se sabe, já não faz parte da União Europeia, está no Atlântico. Nada disto é inesperado mas não são boas notícias.

Neste quadro, Portugal será tanto mais relevante quanto mais mobilizarmos e coordenarmos as diferentes constantes da nossa presença externa, que o atual ministro dos Negócios Estrangeiros definiu como um hexágono composto pelas dimensões atlântica, europeia, da língua portuguesa, da diáspora, da internacionalização e do multilateralismo. De entre estas, há uma que Ernâni Lopes repetia incansavelmente: Portugal será maior na Europa se for maior na língua portuguesa e será maior na língua portuguesa se for maior na Europa.

Há, de facto, um potencial de colaboração política entre a União Europeia e a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa que está largamente por identificar e por explorar, sem prejuízo para o programa de cooperação entre a UE, os
PALOP e Timor-Leste. Portugal é o único país que é simultaneamente membro da UE e da CPLP e poderá contribuir para identificar os interesses comuns e explorar as suas oportunidades, reforçando o nosso papel numa nova centralidade entre a Europa, África, a América do Sul e a Ásia.

No século XXI estamos a substituir o mapa que conhecemos por outro onde Portugal está na periferia. O Atlântico não voltará a ser o centro e o nosso interesse nacional está em contribuirmos para que o mundo seja mais um globo e menos um planisfério.

Bom Ano Novo!

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa
bicruz.dn@gmail.com

Mais Notícias

Outras Notícias GMG