O mundo em questão

Não há muito tempo, um dos mais seguros fiéis da solidariedade dos países de língua portuguesa, José Carlos Gentili, membro de prestígio da Academia de Letras de Brasília, esteve entre nós (2018) na Academia das Ciências, para participar no que chamou "notável colóquio", cujo título era a língua portuguesa. A sua permanente intervenção na concretização do sonho que foi de Kubitschek de Oliveira, é histórica. Por igual ocupa-se da evolução, com grande esperança, do Brasil, da sua história portuguesa, do seu apego à solidariedade da CPLP. Alguns dos seus livros, numerosos, como Lagoa dos Cavalos (2012), ou Vivências (2020), além da dedicação à solidariedade da língua e do provado interesse pela grandeza do Brasil e pela importância da CPLP, fizeram que o seu passado legitimasse a Presidência de Honra Perpétua da Academia de Letras de Brasília. Fez uma crítica positiva à decisão de D. João VI de criar os Reinos autónomos de Portugal-Brasil-Algarves, prevendo a independência consentida desse novo Brasil.

Esta independência ficou ligada à previsão do futuro, partilhada por Correia da Serra e Jefferson, de que pertenceria aos EUA a orientação do norte do continente cujo nome era o seu, e o Brasil teria igual função no sul. Uma das referências da capacidade brasileira nesse tempo de manter a ordem interna necessária encontra-se na criação da Guarda Nacional (1831) presentes em todos os municípios, nascendo em vasto grupo de oficiais. O sonho da capital da esperança, que foi a surpreendente Brasília de Kubitschek, teve em Agostinho da Silva um precioso apoiante. Infelizmente, no século em que aconteceu viver sem bússola, o sonho de Correia da Serra e de Jefferson perdeu consistência, começando pelas inquietantes governanças do Brasil e da América, o primeiro numa incerteza evidente de processo, e os EUA assumindo a difícil tarefa de regressar ao passado para ter futuro, quer nas instituições internacionais, que o mandato presidencial anterior desconsiderou, quer pela urgência de refazer a unidade nacional do povo.

A formação ética do atual presidente, que muito oportunamente referiu, é uma segurança para a governação que anunciou. Todavia as dificuldades, para além das imputáveis à presidência anterior, são o fator da guerra com a covid-19, e começam por exigir, cada vez mais firmemente, articulações à situação da América Latina, que não consta solidariamente dos projetos, ou processos, de governança, agora bem diferentes dos sonhos do Académico Correia da Serra. Quanto à Europa, o discurso público que o presidente Emmanuel Macron fez no passado fevereiro na sua Escola Militar, serve de indicação a todos os governos sobre a relação entre segurança e pandemia. Enumerou quatro pontos: a necessidade de procurar o multilateralismo, que foi prejudicado pelo desenvolvimento dos conceitos americanos estratégicos, pela resposta europeia de esperar, e, como é natural, pelo eventual tema das soberanias nacionais.

A questão evidente é que a relação entre a ação cooperativa dos Estados, hoje da União, não pode ver secundarizada a necessidade da Aliança Atlântica, tem de encontrar um apoio financeiro a que o facto da defesa da saúde pública disputa prioridade e decisão de quem governa. Nesta complexidade crescente, tem especial exigência o previsível facto da possível agressão do fraco contra o forte, apoiado no progresso da tecnologia.
O primeiro exemplo, que produziu inquietação mundial, e não será esquecido, foi o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque. O então presidente dos Estados Unidos, a visitar uma escola, e chamado à verificação da gravidade do ataque, disse, e não se esquecerá, o seguinte: "É tarde para os homens e cedo para Deus." Infelizmente a sua inspiração não impressionou com autoridade intervenções políticas que se seguiram, o que não permitiu esquecer o possível agravamento. A demonstração deu-se justamente em Paris com o brutal terrorismo que escolheu cortar a cabeça do ilustre professor Samuel Paty. Mas agora, na África, destaca-se a situação cruel em Estados da CPLP, sobretudo Moçambique, que não podem ser esquecidos enquanto sofrerem.

O aspeto mais desafiante para intervenções de proteção é de serem evidentes motivações económicas, e não da liberdade dos povos. A invocação da importância da fé, por exemplo, de um islão ortodoxo, não oculta que é necessário ter presente nessas terras de pobreza e medo, que podendo o ataque interessar ao chamado Estado Islâmico, existe um interesse evidente em riquezas como gás natural, madeiras, pedras preciosas, e até mulheres e crianças. É evidente que são membros da CPLP e a voz portuguesa tem de ser ouvida. Mas cada vez mais grave é não repor na ONU os meios de intervenção que não têm. Ainda não foi possível impedir a validade das palavras de Paul Kennedy (1988): "Não nos deparamos com uma nova Ordem Mundial, mas sim um planeta agitado e fraturado."

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