O multilateralismo, quando renasce, é para todos?

Há uma semana escrevi nestas páginas que "o consenso internacional que defendia que os problemas, desacordos e dificuldades entre os países se resolviam por meios pacíficos e que as intervenções militares unilaterais não tinham lugar nos instrumentos de política externa está em xeque. O idealismo que nasceu nos escombros do Muro de Berlim está a morrer nas ruas de Kiev". Felizmente, eu estava enganado!

Uma semana depois da invasão de um Estado soberano e membro das Nações Unidas, o exército russo ainda não atingiu os seus objetivos, enfrentando uma resistência feroz das forças armadas, do governo e do povo da Ucrânia. Ao mesmo tempo, numa inesperada manifestação de quase unanimidade da comunidade internacional, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou por 141 votos a favor e cinco contra uma resolução a condenar a Rússia, e muitos países tradicionalmente próximos de Moscovo optaram pela abstenção e não apoiar a decisão do presidente Putin. Paralelamente, organizações internacionais de diferentes origens, objetivos e composição juntaram-se ao consenso, as federações desportivas de praticamente todas as modalidades suspenderam as equipas russas, no que foram acompanhadas por organizações culturais e artísticas e as principais empresas do mundo cancelaram as suas atividades e negócios na Rússia, com custos e perdas que ainda estão por apurar.

Economicamente, a Rússia está sob um rigoroso mecanismo de sanções, que levou em poucos dias à desvalorização quase absoluta da moeda, ao congelamento dos depósitos financeiros do governo e de pessoas ligadas ao regime no exterior, à suspensão do acesso de alguns bancos ao sistema de pagamentos internacional e à classificação da dívida russa como "lixo" pelas agências de rating internacionais.

Finalmente, a resposta da União Europeia é igualmente extraordinária. Pela primeira vez na sua história, a UE está a enviar equipamento militar ofensivo para um teatro de guerra, países neutrais como a Suécia e a Finlândia apoiam ativamente o esforço militar e mesmo os países com políticas de imigração mais restritivas aceitaram implementar pela primeira vez a "diretiva de proteção temporária" de 2001, que reconhece direitos de quase cidadania aos refugiados ucranianos.

Embora sem sabermos como esta triste história irá terminar, a reação da maioria substantiva dos Estados do mundo, organizações internacionais políticas, económicas, culturais, artísticas e desportivas, do setor privado e até da opinião pública mostra que uma linha foi ultrapassada e que há limites para o que estamos dispostos a aceitar. Mas, e infelizmente, a guerra na Ucrânia não é o único conflito no mundo e outras guerras que também provocam mortes, destruição e miséria continuam, mesmo que tenham desaparecido das agendas internacionais e dos ecrãs das nossas televisões.

O mundo está a dizer em quase uníssono que não está disposto a aceitar a violação do direito internacional, da Carta das Nações Unidas e dos direitos de pessoas que mais não querem do que viver as suas vidas em paz. Esperemos que a mesma vontade, resolução e firmeza sejam utilizadas em outros conflitos e guerras e que o multilateralismo passe a ser o mecanismo comum de resposta às crises e às guerras que nos afligem coletivamente.

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa

bicruz.dn@gmail.com

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