O modelo mix

Na viragem de 2019 para 2020, a pandemia covid (CoronaVirus Disease) que emergiu na região central chinesa, na populosa cidade de Wuhan (mais de 11 milhões de habitantes), rapidamente transpôs a Muralha da China. Desde então, são aplicadas e recomendadas múltiplas ações para prevenir e controlar a sua propagação. É já possível considerar o conjunto destas atividades como "modelo mix", atendendo às diferentes iniciativas anteriormente aplicadas com o mesmo fim ao longo da história da saúde pública e que continuam hoje como indispensáveis. Os diferentes períodos distinguem-se pelas descrições documentadas e pela evolução das ações preventivas desenvolvidas em todas as crises, ocorridas em determinadas épocas, mas sem ignorar as anteriores. Sem ignorar, sublinhe-se.

Precisem-se as sucessivas etapas.

No século V a.C. - na Antiguidade Grega - durante a guerra entre Atenas e Esparta, uma epidemia (gripe?) de grande magnitude devastou a grande península do sul. Os relatos detalhados que o historiador grego Tucídedes (460-395 a.C.) testemunhou e escreveu sobre a Guerra do Peloponeso revelam ensinamentos que viriam a ser repetidos no futuro. Já então, escreveu que os doentes que tinham tido a infeção e que não morreram eram, logo a seguir à convalescença, mobilizados para cuidar de novos doentes porque não tinham risco de adquirem nova infeção. Estavam imunes.

No início do primeiro milénio o isolamento e o confinamento eram práticas comuns para impedir a transmissão de doenças contagiosas, como a lepra, por exemplo.

Na Idade Média, a peste negra era, já nesse tempo, prevenida e controlada por medidas de quarentena, distanciamento físico e isolamento. Os cuidadores usavam máscaras e complicados equipamentos de proteção individual.

No final do século XVIII e durante os séculos XIX e XX, a vacina antivariólica de Edward Jenner (1749-1823) iria erradicar, em 1980, a circulação do vírus da varíola em todo o planeta.

Como se sabe, no século XX surgem, paralelamente à introdução de medidas inovadoras de higiene individual e social, novos medicamentos e vacinas. Métodos laboratoriais, baseados em técnicas de biologia molecular, cada vez mais rápidas, são produzidos pela indústria farmacêutica. Facilitam o diagnóstico causal da infeção. No conjunto, fazem reduzir a mortalidade e aumentar a esperança de vida.

As vacinas contra a poliomielite, a difteria, o tétano, a tosse convulsa, o sarampo, a parotidite, a rubéola e a febre amarela, além de outras, são obtidas ou por atenuação ou por inativação do respetivo agente da doença. São muito seguras. Evitam as doenças em pessoas vacinadas.

Já perto do final do século XX surgem as primeiras vacinas obtidas por metodologias de engenharia genética que, ao transformarem o agente, são, comprovadamente, muito eficazes e seguras, como aconteceu com a vacina contra a hepatite B (a primeira vacina contra o cancro).

Agora, pela primeira vez, para prevenção da mortalidade específica pela covid-19, são introduzidas vacinas fabricadas com base no ARN m (ácido ribonucleico mensageiro). A vacina assim obtida, ao ser injetada, induz a produção de uma proteína existente no vírus que o organismo humano não reconhece como sua, visto que é estranha, e, por isso, produz imunidade específica para essa mesma proteína. Uma revolução. Isto é, estas vacinas ARNm não contêm nem o vírus atenuado nem inativado, mas sim a mensagem para o organismo humano produzir uma proteína que, por ser estranha o sistema imunitário, se encarrega de assegurar a produção de anticorpos e a proteção para a eventualidade de infeção com o vírus verdadeiro.

Logo depois, já em 2021, são produzidos medicamentos antivirais também inovadores.

A introdução na rotina diária da solução antissética de base alcoólica (álcool etílico 96%, glicerina e água destilada) que pode ser aplicada com frequência, uma vez que não tem efeitos abrasivos, representou um admirável avanço no controlo das infeções hospitalares e na redução do risco de transmissão de doenças transmissíveis como a covid-19.

Em resumo, a título de englobamento, a prevenção e o controlo da pandemia fundamentam-se num mix que inclui isolamento, confinamento, utilização de máscaras, higiene das mãos com solução alcoólica, diagnóstico molecular rápido (como a CVP introduziu em Portugal), novas vacinas e medicamentos antivirais.

Um mix de antigo, medieval, hoje e o futuro!

Ex-diretor-geral da Saúde

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