O milagre do perdão

Participei há anos no funeral gigantesco de um jovem padre francês. Na África do Sul. Tinha sido morto por engano na estrada, com a mira do roubo. Os pais não puderam estar presentes fisicamente. Fizeram-no do modo mais nobre e emocionante: o bispo leu àquela multidão o texto em que eles declaravam que perdoavam de coração aos assassinos.

No Evangelho, se há tema que volta sempre de novo é o do perdão. É preciso perdoar sempre. De coração. O próprio Jesus, do alto da cruz, perdoou aos seus algozes.

Mas o perdão é um milagre, como reconheceu o próprio filósofo J. Derrida, remetendo para a religião. Um milagre no sentido intenso da palavra. É algo de espantosamente admirável, porque transcende a lei da simples justiça. No âmbito da justiça pura, ninguém pode ser obrigado a perdoar e ninguém pode exigir o perdão. Perdoar é do domínio da generosidade, ser perdoado é da ordem da graça: ser perdoado é ser agraciado, receber uma graça. A justiça contabiliza. O perdão desfaz a lei do cálculo. Por isso, até na linguagem corrente, referente a pequenas ofensas, o ofendido dirá a quem pede desculpa: "Deixa lá, não foi nada!" A essência do perdão é a anulação do cômputo e da permuta, substituídos pelo dom. Quem ofendeu já não deve, porque o ofendido esqueceu a dívida, não tem em conta a ofensa. Assim, em verdade não perdoou a mulher que todos os dias repetia ao marido, que tinha tido uma "escapadela": "Não te esqueças que eu te perdoei de todo o coração!"

A justiça no seu rigor estrito não contempla o perdão. Mas, sem o perdão, a vida torna-se intolerável, pois quem ofendeu é devorado pela culpa, e o ofendido, roído pela vingança.

Apesar de tudo, há algum fundamento para o perdão? Em primeiro lugar, tenha-se em conta a compreensão pela fragilidade humana: se os seres humanos pudessem contar a sua história desde a raiz e até ao fim - o que será sempre impossível, pois desconhecemos a nossa raiz e o nosso fim -, a quantos se negaria compreensão? Mas há sobretudo a lei do ser, que é dom: antes de eu te dar seja o que for - também o perdão -, eu já recebi, existir é ser recebido desde sempre da Fonte, que dá sem nada exigir em troca e, por isso, mora no abscôndito.

Também por isso, perdoar mesmo só o Criador pode fazê-lo. De facto, a ofensa é uma ferida no ser, que a criatura, no limite, mesmo que a vítima perdoe, não pode propriamente reparar. Quem restitui ao jovem padre francês assassinado as suas possibilidades mortas para sempre? Só o Criador pode fazê-lo. É assim que o perdão da criatura não pode desvincular-se da memória. Perdoar não coincide com esquecer. Mesmo se a vítima esqueceu, perdoando, quem ofendeu tem de lembrar, para que o mal nunca mais se repita. Quem foi perdoado é convocado ao arrependimento e a uma vida nova. Como disse Kierkegaard, "tudo está esquecido, mas lembra-te do perdão".

Concretizando. Uma das situações em que o ser humano é confrontado com o limite é o caso do perdão do algoz por parte das vítimas mortas, como se torna palpável na história contada por Simon Wiesenthal numa obra sobre Auschwitz. Como contou Jürgen Moltmann, o judeu Wiesenthal era prisioneiro num campo de concentração e foi chamado ao leito de morte de um chefe nazi, que lhe queria confessar a ele, o judeu, que tinha participado nos fuzilamentos em massa de judeus na Ucrânia. Queria pedir-lhe perdão, para poder morrer em paz. Wiesenthal disse-lhe que podia ouvir a confissão do assassino, mas que não podia perdoar-lhe, pois "nenhum vivo pode perdoar em nome dos mortos aos seus assassinos". Não pode fazê-lo, porque não tem o direito nem o poder para isso. E Wiesenthal ficou tão abalado com esta impossibilidade de perdoar que escreveu a muitos filósofos e teólogos europeus a contar-lhes a sua história, que publicou, com as respostas, num livro com o título: Die Sonnenblume (O girassol).
A razão, para não sucumbir à parcialidade, se quiser ser verdadeiramente universal, não pode não ser "razão anamnética", isto é, tem de se deixar iluminar pela memória das vítimas. E é imprescindível a memória para que as tragédias acontecidas não voltem a acontecer... Por outro lado, quem fará justiça às vítimas, também para que os algozes possam reconciliar-se e encontrar a paz?

O místico é aquele que caminha com Deus e para Deus, mas sem abandonar a noite. Ele não se distingue do crente e do descrente, que simultaneamente somos com dor e sofrimento, por já ter sido subtraído à noite na qual todos os mortais vivemos submersos. "Distingue-se por ter avançado na noite o suficiente para que a noite seja para ele "amável como a alvorada" (...), outra forma de luz", como escreveu o teólogo Juan Martin Velasco. Para muitos, em nenhum lugar da História esta experiência mística em que culmina a experiência de Deus foi tão radical como na cruz de Cristo, onde, segundo a fé cristã, "Deus se revela de forma definitiva e, por isso, insuperavelmente obscura". Aí, precisamente na dor insuportável da sua "ausência", nessa noite de trevas, Deus está infinitamente presente, escutando aquela oração simultaneamente desesperada e confiante, que atravessa os séculos: "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?; Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

Os cristãos ousam acreditar que Deus ressuscitou de entre os mortos esse Crucificado, que o foi por blasfémia e sublevação do povo oprimido político-religiosamente.
NEle, Deus revelou-se solidário para sempre com todas as vítimas.

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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