O laboratório francês

Le feu qui semble éteint souvent dort sous la cendre

(Corneille)

Marx, que considerava a Alemanha a pátria da filosofia (assim cantava Caetano Veloso: "só é possível filosofar em alemão"), atribuía à Inglaterra a primazia na economia e à França a vanguarda dos movimentos políticos. Alguém não menos inteligente, Jaime Gama, dizia há pouco que tínhamos que estar muito atentos às mudanças políticas em França, que encerrariam fortes indícios para o nosso futuro.

Vivi algum tempo em França e sou afrancesado desde pequenino. A oportunidade de passar os últimos quinze dias do mês de junho entre Paris e Estrasburgo levou-me a esse feliz reencontro, que é sempre encontro com uma parte de mim. Mas alguma coisa me inquietou.

Nunca vi os franceses tão céticos em relação ao universo das lutas políticas, tão desprendidos do seu famoso espírito "frondeur", que bem recentemente vimos florescer nos "gilets jaunes", tão indiferentes e de tal modo resignados que até a Sra. Le Pen ganhou um tom cordato e institucional que contrasta com o modo arruaceiro que é sempre apanágio e graça da extrema direita. É verdade que um mês antes dos acontecimentos de maio de 1968, o "Monde" publicava um editorial sob o título "A França aborrece-se"... Nunca se sabe o que poderá brotar de uma aparente passividade. Como dizia Corneille, o fogo que dorme sob as cinzas pode bem vir a surpreender-nos.

O deslizar tranquilo e sem surpresas de Macron para a direita e a (apenas tática?) inflexão de Marine Le Pen para um tom de seriedade e responsabilidade institucional, leva muitos franceses a desvalorizar a política de "frente republicana", que levava a esquerda a votar no candidato de direita mais bem posicionado para derrotar a extrema direita, e a considerar sem sobressalto a hipótese de uma vitória de Le Pen. A esquerda foi-se diluindo nas suas múltiplas cambiantes ideológicas, enquanto a direita democrática disputa o seu espaço político com um Macron enfraquecido. Macron tentou esvaziar o universo político francês das suas alternativas, sem conseguir simultaneamente mostrar-se como eficiente barreira a uma extrema direita que deixou (até quando?) de assustar eficazmente os franceses.

A preocupação que eu senti com a França prende-se com a ausência ali, não de um debate de ideias, que existe e é bem forte (tomáramos nós...), mas de uma ideia consistente de alternativa política. A nação que foi considerada a mais política da Europa deixou-se deslizar para um estranho estado de anomia, que nos faz recear, face às ameaças que nos rodeiam, um acentuar da impotência europeia, que a França, ainda assim, é das poucas a denunciar no seu discurso.

O regresso dos Estados Unidos às suas responsabilidades mundiais obriga ainda mais todos os que acreditam num papel próprio para a Europa a assumirem plenamente as responsabilidades que lhes cabem como europeus. Ora a indiferenciação política não favorece a vontade de assumir qualquer papel ou responsabilidade que seja.

Poderá o nosso futuro político vir inscrever-se na triste alternância entre uma direita tecnocrata e economicista e uma extrema direita um pouco mais polida e asseada? Quando voltei a Portugal, chocou-me certamente o tom rasteiro, deselegante e mal articulado de boa parte dos nossos debates; mas senti como uma bênção que eles continuassem a existir.

Diplomata e escritor

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