O feiticeiro e a sombra. Chick Corea (1941-2021)

Miles Davis, Stan Getz, Sarah Vaughan, Dave Holland, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Brad Mehldau, Michael Brecker, Stevie Wonder, Al Di Meola, John Mayer. Ele tocou com todos. Pianistas, vocalistas e homens do sopro. Velhos, novos e contemporâneos. Mestres, discípulos e rivais. Em trio de jazz, em duo de pianos ou em banda alargada para descoberta da fusão, Armando Anthony Corea, nascido há 79 anos no Massachusetts, foi um dos maiores exploradores musicais do século XX.

O leitor conhece-o como Chick Corea; teclista, compositor e grande intérprete. Partiu, nesta terça-feira, vítima de uma forma rara de cancro.

Dono de 65 nomeações para Grammys e 23 prémios, o meio século de carreira foi em tudo excecional, com um volume de produtividade e criatividade invejáveis no tempo. Não era homem de nenhum género, mas poderá dizer-se que ajudou a fundar vários ou, pelo menos, a redesenhar o arquétipo do jazz. Nas suas palavras, a música era a arte que servia de "antídoto ao lado sombrio da vida", o que fez dele, e em particular nos seus concertos ao vivo, um autêntico feiticeiro dessa boa luz.

Criado numa casa musical, filho de um trompetista, as suas memórias mais antigas assentavam no escutar de antigos vinis, "muito Duke Ellington", sendo a sua referência mais ancestral o pianista Art Tatum, algo audível nos seus discos de standards a solo no início do milénio. Bud Powell e Thelonius Monk como inspirações naturais, mais técnicas.

Na sua vasta discografia, encontram-se diferentes sensibilidades, típicas de um artista multifacetado que não vivia para agradar a ortodoxos. Era, na sua formação e atuação, um inovador de génese conservadora. Um classicista, de certo modo, mas um classicista que não reconhecia limites. E a questão que talvez fique por responder, ouvindo a sua obra, conhecendo o seu percurso, é se cada nova experiência correspondia a um desvio do rumo ou, por outro lado, ao rumo em si. "Procurar melodias", "reencontrar lirismos", eram metas imutáveis. Já os caminhos, raramente se repetiam. "A minha única resposta é continuar a tocar", dizia ele, para quem a improvisação era a solitária constante.

Descreveu as suas colaborações com Gary Burton e Hancock como "calçar um velho sapato, confortável, familiar", e foi com esse à-vontade que herdaria a cadeira de Bill Evans, Red Garland e Horace Silver ao lado de Miles Davis, com quem gravou álbuns como Bitches Brew ou On the Corner, marcantes na era de transição do jazz para ambientes eletrónicos. Corea inauguraria o seu próprio grupo, Return to Forever, precisamente para os explorar, mas nunca se fixaria numa só paisagem. "Os pelos levantavam-se do meu braço", lembrou, numa entrevista em 2005, dos concertos ao vivo da banda.

Na década de 1970, seria consigo que as sinergias entre o jazz e o rock ganhariam dimensão internacional. Em quinteto, brilharia mais tarde com nomes como John McLaughlin e Kenny Garrett, regressando, ao mesmo tempo, a trios acústicos. Em 2012, num reencontro simbólico, juntar-se-ia a Eddie Gomez e a Paul Motian, antigos colaboradores de Bill Evans, para gravar Further Explorations. A "relação musical", termo seu, que manteve por mais tempo foi com o vocalista Bobby McFerrin. Mas viveu, como mostra o currículo, um músico ocupado.

Da sua relação com Keith Jarrett, com quem rivalizava tacitamente pela polivalência e a profusão, nasceriam dois discos e uma piada. Ao ouvi-lo tocar pela primeira vez, Corea elogiou: "A tocar assim, tu és negro! Só podes ser negro!" E Jarrett, com humor, respondeu: "Estou a trabalhar nisso." Eram dois intrusos, num mundo em que os reis ainda não conheciam outra liberdade que não a música.

Colunista

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