O Evangelho segundo São João Travolta

Há filmes que são mais do que filmes e, goste-se ou não, Saturday Night Fever é um deles. A coisa começou com uma reportagem aldrabada na New York Magazine, "Tribal Rites of the Saturday Night", em que o autor, o inglês Nik Cohn, descrevia o frenesi nocturno de uma discoteca suburbana de Bay Ridge, Brooklyn, a 2001 Odyssey, mais tarde convertida em endiabrado clube gay e posteriormente encerrada.

Em 2016, por ocasião do 40.º aniversário da publicação desse épico artigo, Nik Cohn reconheceu que a reportagem fora completamente inventada e tudo quanto nela era descrito - a cena de violência na rua, observada por um macho impassível, encostado a um carro - fora fruto da sua fértil imaginação. O facto não impediu que, logo que foi publicada, o seu potencial tivesse sido notado pelo produtor australiano Robert Stigwood, um nome associado a prodígios de mau gosto como Jesus Christ Superstar, Grease ou Fame que se antecipou à concorrência e comprou a pronto os direitos de adaptação ao cinema.

O resto foi o caos, ou perto disso. O realizador inicialmente contratado, John Avildsen, foi despedido no próprio dia em que soube que estava nomeado para um Óscar (que ganhou, aliás, pela autoria de Rocky) e, a poucas semanas do começo das filmagens, a produção teve de ir buscar às pressas um inglês inexperiente, John Badham, que até então só tinha dirigido um filme, por sinal terrível, a comédia musical The Bingo Long Travelling All-Stars & Motor Kings.

Para o papel do protagonista, Tony Manero, rei da disco, a escolha foi consensual: John Travolta tinha participado em musicais da Broadway, gravado discos de sucesso e entrado em alguns filmes e, sobretudo, era estrela numa popularíssima sitcom da ABC. Já a actriz principal, Karen Lynn Gorney, no papel da cabra petulante Stephanie Mangano, foi contratada por acaso, após ter partilhado um táxi de Manhattan com um assistente de produção.

A escassos dias de rodagem, não havia designer de produção e o guião ainda não estava concluído, apesar de Travolta já estar a ensaiar há meses e a sujeitar-se a um regime espartano que o levara a perder dez quilos e o obrigava a dançar três horas por noite e a correr três quilómetros diariamente. A notoriedade do seu papel na série da ABC acabou por ser fatal: no primeiro dia de trabalho, os fãs precipitaram-se aos milhares sobre os locais das filmagens e estas tiveram de ser remarcadas para horas mortas, começando às cinco da manhã, para evitar mais atropelos e selvajarias.

Na antevéspera da rodagem, Travolta sofreu uma tragédia íntima: a actriz Diana Hyland, o seu grande amor, que o incentivara a aceitar o papel, morreu vitimada por um cancro da mama, drama do qual nem o amparo da cientologia, a que o actor se convertera há pouco, o conseguiu resgatar (só nos anos de 1980 iniciará um novo romance com Catherine Deneuve).

O filme é uma narrativa musicada dos trabalhos e dos dias de Tony Manero, um jovem ítalo-americano de 19 anos que ainda vive em casa dos pais, em Bay Ridge, Brooklyn, e trabalha como vendedor de uma loja de tintas, sonhando com o sábado redentor em que é aclamado em êxtase na 2001 Odyssey, onde abre clareiras na pista e é monarca absoluto. As mulheres cortejam-no, dizem-no parecido com Pacino (os ídolos dele, afixados na parede do quarto, são Bruce Lee e Farrah Fawcett), os amigos elogiam-no vezes sem conta, uma gordita porcina pede-lhe que a deixe limpar-lhe o suor da testa. Manero e os seus comparsas são racistas ("enfiavas a pila numa hispânica?", pergunta um deles), homofóbicos, grosseiros.

Além de um conflito tribal com um gangue hispânico, clássico em todos os "filmes de juventude" (West Side Story, Rebel Without a Cause, American Graffiti, Rumble Fish), há uma amena cena de bullying a dois gays, sem consequências de maior. As raparigas sujeitam-se à tirania binária de serem "atinadas" ou "baldas", enquanto os rapazes têm uma sexualidade mais nivelada, simples e directa: "Tenho de dar uma queca, estou excitado, percebes?" "Percebo, pá."

Quanto a Tony, é um possessivo e um alarve completo, que o máximo que consegue dizer à gentil amada, no auge romântico da cena final, é "não me estou a fazer à tua ratinha" (mais sensata, ela propõe ficarem amigos).

Há também a gorducha de serviço (a actriz Donna Pescow, que engordou de propósito para o filme), eterna apaixonada de Manero, com quem este aceita a contragosto ter sexo no banco de trás de um automóvel emprestado (logo que se apercebe de que a rapariga não tomava a pílula nem usava diafragma, Manere sugere, sem sucesso, a alternativa oral do "faz-me uma mamada"; ela regressa mais tarde, de preservativo na mão, mas o galã despeitado despacha-a sem piedade).

O filme tenta armar ao sério em certos trechos patéticos, em que a "profundidade" ou a "densidade" são buscadas no óbvio: o irmão de Tony é um seminarista em crise de fé e surge também em cena um adolescente tímido e sensível, incompreendido, com a namorada grávida, que acaba por se atirar do alto da Ponte Verrazano, a qual, no seu imobilismo majestoso, acaba por ser dos intervenientes mais lúcidos da fita.

Talvez a frase mais marcante de Saturday Night Fever seja o grito lançado pelo disc jockey hirsuto para a pista de dança: "Adoro o vosso look poliéster!" E é um facto que a película retrata uma época essencial e medularmente foleira, com camisas de antologia e fatos brancos de três peças (além de penteados armados, muitos fios de ouro ao pescoço, sapatos de tacões quilométricos e calças à boca de sino, entre outras bizarrias).

É também indesmentível que, ao contrário do que muitos julgam, o filme não lançou o disco sound, que já na altura se encontrava em merecido declínio, pelo menos na América, não tardando muito a que aparecessem legiões a queimar álbuns de vinil aos gritos - "Disco Sucks!" - ou que as rádios promovessem "Bee Gees free weekends", libertando os ouvintes da audição contínua das músicas dos irmãos Gibb, que em Saturday Night Fever têm tanta ou mais importância do que o argumento, sendo ambos péssimos, deliciosamente péssimos.

Ao princípio, os executivos da Paramount julgaram que ia ser um desastre, mas, até pelo tremendo impacto cultural, mental e sentimental que teve (para não falar dos 285 milhões de dólares de lucro), Saturday Night Fever é um filme histórico e de importância extrema, que marcou de forma profunda atitudes, comportamentos, gostos e tendências de milhões de adolescentes em todo o mundo, Portugal incluído, seduzidos por aquele fugaz momento de optimismo ingénuo vindo de uma América ainda dilacerada pelo Vietname e pelo Watergate e na ressaca do choque petrolífero de 1973 (sintomaticamente, o pai de Manero é um desempregado de longa duração).

As drogas usadas no filme parecem-nos hoje leves, quase pueris (uns drunfos e uns speeds, charros), e sobre o sexo, ocasional e descomprometido, não pesava ainda o espectro da sida, não sendo ao acaso que em 1977, o mesmo ano da estreia do filme, foi inaugurada em Nova Iorque a discoteca Plato's Retreat, um clube de swing heterossexual que todas as noites se transformava numa formidável e imparável orgia.

Quanto a temores e medos colectivos, receavam-se as bombas da Rússia e os óvnis intergalácticos, mas nada de comparável aos dias que estamos vivendo - quanto às alterações climáticas, por exemplo, o pânico da moda era o de uma nova Idade do Gelo, como bem lembra David Frum no fantástico livro How We Got Here. The 70's. The Decade That Brought You Modern Life (For Better or Worse), saído em 2000.

Sexista, machista, racista, homofóbico, Saturday Night Fever é o cúmulo da incorreção política, sendo, ele próprio, um filme profundamente antipolítico ou, quando muito, apolítico, sem preocupação alguma de trazer uma "mensagem" ou ministrar uma "doutrina" aos espectadores, sobretudo aos mais novos. A sua filosofia primordial é a busca do máximo prazer no mínimo tempo possível, o tempo da adolescência efémera, e os seus horizontes concentram-se em exclusivo no imediato, no presente passageiro. Foi essa a razão do seu êxito estrondoso. Sempre que os políticos falam da "juventude" e se dirigem a ela, deviam lembrar-se disso.

Para o meu irmão. Manuel.


Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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