O enorme chapéu da pandemia

De 22 a 26 de novembro, decorreu em Brasília a 2.ª Formação Técnica do projeto Terminologias Científicas e Técnicas Comuns da Língua Portuguesa (TCTC), organizada pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) com apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. O projeto, em curso desde 2015, visa criar bases para a recolha e harmonização de termos científicos e técnicos de diferentes áreas de especialidade, em uso nos países da CPLP. O objetivo último é dotar a língua portuguesa de recursos (de que não dispõe) que garantam a qualidade do seu uso, e.g., em organizações internacionais. Salvo casos específicos (normas ISO, de organizações de especialidade, ou legislação), nos países da CPLP não existem instituições que normativizem (i.e. normalizem com força de lei) as terminologias; o trabalho terminológico é maioritariamente descritivo. Este facto, a par de as TCTC recolherem terminologias de Estados soberanos, justifica a abordagem descritiva e harmonizadora do projeto, i.e., nenhum país pode impor a sua terminologia (nem a sua variedade linguística) e cada um é responsável pelos dados que fornece à plataforma comum. Esta tem sido, de resto, a filosofia dos projetos do IILP.

Na formação das TCTC estiveram representantes dos países da CPLP, exceto Guiné Equatorial e Timor-Leste, tendo este país justificado a ausência. Na quinta-feira, foi apresentada a versão, ainda de circulação restrita, do Manual para a recolha e sistematização científicas e técnicas no âmbito da CPLP; quando publicado (o que se prevê que aconteça em breve), este manual constituirá um guia de trabalho para o reforço de variedades nacionais não dominantes de qualquer língua pluricêntrica, diminuindo o fosso que as separa das variedades dominantes.

Finda a formação, no dia 27, a maioria dos participantes regressou a suas casas e muitos de nós, que tínhamos passado toda a semana juntos, viajaríamos no voo TP58, com destino a Lisboa. Digo "viajaríamos", pois nem todos o conseguimos fazer: o nosso colega moçambicano foi impedido de embarcar para Lisboa (onde tem família que o poderia acolher até conseguir regressar a Moçambique), devido às restrições impostas aos países da África Austral pelo surgimento da variante Ómicron. Assim, enquanto uns chegaram no domingo de manhã a Lisboa (onde já havia registo de Ómicron), em Brasília (onde não havia registo de Ómicron), o colega moçambicano iniciou o longo calvário que o levou de Brasília a Lisboa (para onde não pudera viajar na véspera), Lisboa a Dakar, daí a Adis Abeba e a Maputo, onde chegou ao início da tarde de quarta-feira.

Este episódio e as notícias sobre o modo como decorreu, no sábado, a chegada a Lisboa dos passageiros repatriados de Maputo fazem-me pensar no quanto o medo irracional (da doença, do outro, do incerto, da perda de estatuto) é responsável por tantos abusos, absurdos e desumanidades, justificados (ou não) pela pandemia de covid-19. É por isso impossível não concordar com Mia Couto e José Eduardo Agualusa: há apenas uma pandemia, que nenhum muro nem barreira reterá. Há só uma pandemia que cobriu o mundo com um enorme chapéu, que escurece os princípios de humanidade, a vida das pessoas e reforça as hegemonias de sempre. Um chapéu que ensombra o mundo, obnubila o raciocínio e impede a ciência de iluminar as decisões políticas.

No mundo de hoje, ninguém estará a salvo enquanto não estivermos todos a salvo. É urgente tirar o chapéu à honestidade, e não cobri-la de opróbrio e punição.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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