O discurso do rei

Raras são as vezes em que as testemunhas da História se apercebem, a devido tempo, que estão diante dela. Nem os que proferem um discurso nem mesmo os que o escutam são, normalmente, capazes de adivinhar a sobrevivência das suas palavras no futuro. Quando ouvi a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, faz hoje uma semana, nas comemorações parlamentares do 25 de Abril, tive esse pressentimento. Comentei até para o lado: "não te esqueças disto, acabámos de assistir a um pedacinho de História." E estou convicto de que foi disso que se tratou. O Presidente da República fez História com a História. O seu discurso foi histórico no conteúdo e, creio, será histórico na sua recordação.

Devido aos círculos da minha área política, mantenho uma série de amizades acerrimamente defensoras da monarquia. Como republicano, travei dezenas de discussões sobre as vantagens e desvantagens de cada regime com essa interessantíssima e perseverante direita, para quem a política nasce ainda no trono e no altar. Para mim, ainda que não seja assim, a conversa não perde gozo. E um dos argumentos que os meus confrades monárquicos mais repetem é este: só um rei é capaz de representar, como um todo, o país como comunidade histórica. No caso português, com quase 900 anos de passado para representar.

Ora, sem qualquer laivo de maldade ou rancor na direção dos meus amigos mais adeptos da Casa Real, não resisto a constatar o seguinte: o discurso de Marcelo nas celebrações da democracia anulou integralmente a tese monárquica. O Presidente da República, percorrendo as várias eras da ventura e desventura nacional, encarnou, naquela Assembleia, todo o país, toda a nação, todo o Portugal. Fê-lo com conhecimento, humanidade e tato. Fê-lo num tempo em que mais ninguém o faria. E fê-lo no tempo em que era mais importante que o fizesse: perante uma crise pandémica, face a um sistema político em metamorfose e ameaçado por populismos e à saída de um ano de suspensão da normalidade constitucional.

O facto de as suas palavras terem levantado toda a câmara, à exceção do deputado único do Chega, é simbólico, tanto pelo reconhecimento dos partidos democráticos como pelo silêncio das forças que ameaçam a democracia. Marcelo, que conhece o regime como poucos e se recorda com pormenor do regime que o antecedeu, veio dizer-nos o que já sabíamos ser verdade antes de ele a vir relembrar: a História não se reescreve, não se ignora e não se usa como arma de arremesso eleitoral. E o Presidente, que não tem mais eleições a disputar, sabe a quem o conselho se dirigia.

De toda a sua intervenção destaco uma frase: "Quem vos apela a isso mesmo é o filho de um governante na ditadura e no império, que viveu na que apelida de sua segunda pátria, o ocaso tardio inexorável desse império, e viveu depois, como constituinte, o arranque do novo tempo democrático." E destaco-a pela franqueza do chefe de Estado, filho de um alto quadro do Estado Novo, que ousa admitir que Moçambique mora ainda no seu coração, não como colónia, mas como segunda casa. E destaco-a porque foi a essa sinceridade, de um homem cuja vida atravessa mais do que a república a que preside, que o Parlamento bateu as devidas palmas.

Quando o 25 de Abril fizer 100 e não os 50 anos que se lhe aproximam, estou certo de que os nossos netos nos puxarão a manga e perguntarão, olhando para a televisão da sala, "de que partido era aquele senhor que todos aplaudem?", e talvez alguém arrisque, como ele, dizer a verdade: que o partido daquele senhor, sem tentações autocratas ou semelhantes, era Portugal.

Colunista.

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