O dever da memória

Em 1945, quando foi libertado do campo de concentração de Mauthausen, o meu avô Aaron descobriu que tinha perdido toda a sua família em Auschwitz. O seu mundo acabou ali. Restou-lhe um farrapo de esperança nos homens, com a qual foi para Israel, onde se casou outra vez, construindo outra família. Assombrou-lhe os dias a certeza de que a esperança não chega para garantir que eventos como o Holocausto não se repitam.

É preciso lembrar. Também é preciso lembrar.

No dia 1 de novembro de 2005 a Assembleia Geral das Nações Unidas deu um passo importante para a memória futura implementando o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data escolhida foi 27 de janeiro porque neste dia, em 1945, era libertado o maior campo de extermínio nazi, Auschwitz-Birkenau, pelas tropas soviéticas.

Nós, judeus, carregamos esta memória há mais tempo. Celebrar a memória é, aliás, um dever para quem tem viva uma história milenar. Portanto, não esquecemos. Não poderíamos. E, talvez mais do que qualquer outra coisa, não podemos permitir o esquecimento.

Se é verdade que a história do mundo e dos homens está repleta de capítulos negros, a Shoá foi diferente. A Shoá foi o resultado de uma máquina gigantesca construída e afinada até à perfeição para, deliberadamente, em massa, assassinar judeus. E, por ser tão diferente, por encerrar uma tal doutrina de desigualdade entre homens e raças, mereceu uma atenção especial por parte da comunidade internacional. Um dos maiores crimes contra a humanidade de que há memória. O ponto mais baixo a que levou o ódio.

Vão, talvez, dizer: "Outra vez o Holocausto? Já toda a gente sabe!"

Mas não, nem toda a gente sabe, e, nem mesmo quem sabe, sabe o suficiente.

Em 2019 uma sondagem da CNN revelava que um em cada 20 europeus nunca ouviu falar do Holocausto, não sabe o que foi. Se considerarmos as gerações mais jovens, a estatística é (ainda) mais chocante. Sim, nesta Europa, onde o Holocausto aconteceu.

Mas o propósito deste dia é também, e essencialmente, pedagógico. Convém, por isso, sublinhar que esta não é tão-somente uma data "judaica".

A educação é indispensável para ajudar a promover um sentimento de pertença a uma humanidade comum, criando sociedades resilientes à violência e ao ódio.

Trata-se de não deixar cair no esquecimento a barbárie para, por outro lado, educar para a tolerância e a paz, formar pelo exemplo e alertar para o combate contra o antissemitismo.

Trata-se de lembrar os faróis que, até durante o Holocausto, alumiaram o mundo - os Justos entre as Nações - como Aristides de Sousa Mendes e outros tantos que, em prejuízo das próprias vidas, certificaram-se de que muitos de nós sobreviviam.

Por isso são tão importantes, em Portugal, o Museu do Holocausto, no Porto, e o futuro Museu Judaico, em Lisboa.

Os Museus do Holocausto obedecendo a um princípio comum a todos os museus - de uma certa cristalização do passado - fundam-se desde a sua conceção com uma função pedagógica de suma importância: não só revelar o que é ser judeu, mas também obrigar o visitante a caminhar no seu lugar, tornando-se espectador-ator da barbárie onde por algum tempo se vê imerso para que o outro deixe de existir porque o outro é ele mesmo. Porque é isto importante? Porque é (também) assim que se dá dignidade à vítima. A memória do genocídio que foi a Shoá pretende ser perpétua. Não porque haja algum prazer masoquista em rever a ignomínia que condenou 6 milhões de almas à morte e outras - tantas - a uma vida destroçada, mas porque esta ferida, inevitavelmente sempre aberta, volvidos 77 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em que cada vez restam menos sobreviventes do Holocausto para contar a sua história, é a garantia de que Nunca Mais.

O Museu do Holocausto, no Porto, é o primeiro do género na Península Ibérica. Inaugurado a 5 de abril de 2021, teve, até 15 de dezembro, um total de 40 mil visitantes, maioritariamente jovens e professores. Prova-se, de imediato, que este museu preencheu uma lacuna que existe há muito em Portugal e que há uma enorme sede de conhecimento sobre este tema.

Lisboa terá também um Museu Judaico - Tikvá (esperança) -, que preservará e divulgará a memória e a experiência judaicas, valorizando as diferenças culturais e promovendo a integração inter-religiosa.

A ignorância e a inconsciência são os combustíveis do medo, e com ele vem o ódio. O antissemitismo, incluindo a negação e a distorção dos factos do Holocausto, está a crescer em todo o mundo, com consequências devastadoras para indivíduos, comunidades e democracias.

A Assembleia Geral da ONU adotou, na semana passada, uma resolução proposta por Israel e pela Alemanha apelando a todos os Estados para lutarem contra a negação do Holocausto e o antissemitismo, inclusive nas redes sociais. O nosso obrigado a Portugal por copatrocinar uma resolução tão importante e com tão forte significado político.

Dizia Primo Levi que quem nega Auschwitz está pronto a recriá-lo.

Eduquemos sobre o passado. Honremos as vítimas.

Aprendamos para o futuro e deixemos as trevas para trás.

Embaixador de Israel

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