O desistente

Pode Jair Bolsonaro desistir de se recandidatar para evitar uma - segundo todas as sondagens, mesmo as encomendadas pelo governo - humilhante derrota? A tese, a correr em Brasília, é negada, no entanto...

Para agradar aos evangélicos, Bolsonaro prometeu, ainda em 2018, uma embaixada em Jerusalém, reproduzindo a medida do ídolo Donald Trump. Quando o mundo árabe ameaçou não comprar mais carne brasileira, desistiu e abriu só um escritório comercial.

Mais tarde, para pagar favores eleitorais a Edir Macedo, dono da IURD, aceitou nomear um sobrinho do bispo, desempregado após fiasco eleitoral na corrida à prefeitura do Rio, para a Embaixada da África do Sul. Ao primeiro "não" de Pretória, desistiu.

Ainda no campo diplomático, lançou em 2019 o nome de um dos filhos para a Embaixada dos EUA. Diante da gargalhada pan-americana que a ideia suscitou, desistiu.

Na economia, garantiu aos ingénuos yuppies que o achavam "neoliberal" a privatização dos Correios e da Casa da Moeda. Sucumbindo à base de apoio ávida de tachos na máquina estatal de que é refém no Congresso, desistiu no mês passado.

Em maio de 2020, começava a pandemia a matar, marcou um almoço no Palácio da Alvorada batizado pela imprensa de "churrasco da morte". Acuado, disse que a confraternização (que ele próprio anunciara) era fake news e desistiu.

Na mesma semana, resolveu discursar à nação pela TV para declarar guerra ao isolamento. Dada a pilha de cadáveres de compatriotas escancarada nos jornais, desistiu de dar a cara.

Em agosto do ano passado, entretanto, disse que pediria o impeachment de um dos 11 juízes do Supremo. Pressionado, desistiu.

No mês seguinte, em discurso aos fanáticos, declarou guerra a outro juiz. Ao voltar a casa, redigiu uma carta, a meias com Michel Temer, a pedir desculpas ao magistrado em causa e desistiu, para desilusão dos tais fanáticos.

Por alguma razão, o mesmo político que fugiu dos debates das eleições de 2018 é chamado de "covarde" por Guilherme Boulos, figura destacada do esquerdista PSOL, em coluna no jornal Folha de S. Paulo. Bom, mas que opinião esperar de um líder do equivalente brasileiro ao "Bloco de Esquerda", argumentarão alguns. "Ele é um pouco covarde, ele incita, incita, mas quando as pessoas falam 'então 'tá, vamos topar porrada', ele corre", disse, por sua vez, em entrevista ao DN o seu ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. O deputado Alexandre Frota, até 2019 ferrenho bolsonarista, acrescentou: "Bolsonaro falhou no combate à corrupção, sentando no colo do Centrão [grupo de deputados assumidamente clientelista] como uma cadela no cio, é um covarde." Bom, mas que opinião esperar de dois dissidentes do governo, argumentarão outros.

Recorramos então às palavras do astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho, nada menos do que o guru presidencial. "Bolsonaro é burro, é fraco e é covarde!"

Guru, antigos colaboradores e oposição estão, finalmente, de acordo nalguma coisa: o homem é um covarde.

Desistir de concorrer em outubro, como consta em Brasília, alegando, por exemplo, problemas de saúde em decorrência da facada de 2018, não seria, portanto, uma surpresa. Seria o epitáfio perfeito na carreira política de um desistente.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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