O desafio da circunstância

O processo da União Europeia, conseguido depois da última guerra mundial, diz respeito a uma parcela do globo, com nome cuja origem não corresponde a uma história demonstrada, e também o objetivo de organizar para ele um modelo jurídico das interdependências e unidade, tinha a origem mais determinante na cultura. Lembra sempre a expressão de Camões "Portugal, cabeça da Europa toda". As guerras interiores foram numerosas, pelo que outros povos mais vezes se reconhecem como ocidentais, e outros se dividem por identificadas parcelas: a diversidade dos americanos do Norte e do Sul, com raízes europeias visíveis, e europeus do Leste e do Ocidente, dos nórdicos e dos mediterrânicos, dos ingleses e dos continentais.

Quando na organização mundial, resultado do movimento marítimo que teve origem portuguesa, viria a utilizar-se a expressão "euromundo", que significava a sede onde se encontravam as várias soberanias coloniais, continuava a ser um conceito plural do domínio político alcançado. A identidade dos líderes dessas múltiplas navegações, descobertas, e a imposição de um poder radicado na Europa eram de nacionalidade plural, mas, culturalmente, da República Cristã.

Quando, na Conferência de Teerão, na última guerra, decidiram sobre o futuro político e jurídico do globo, a chamada Era Gâmica sofreria o início do epitáfio dos resultados. A recente obra Escuela Ibérica de la Paz, Edição Universidade de Cantábria (2014), expondo o ensino de universidades europeias, de Coimbra, Évora, Salamanca, mostra que, entre 1511-1694, "a consciência crítica da conquista e colonização da América" levou a uma antecipação secular de que a política tinha valores morais que viriam a orientar as mudanças dos "créditos dos interesses" para os "créditos dos valores", ainda hoje em aviso. Por outro lado, sob o resultado do sofrimento da Segunda Guerra Mundial, quer Toynebee quer Pannikar advertiram que o mundo é que se sentiu duramente atacado pelo Ocidente.

É na vitória da guerra, celebrada pelos vencedores, segundo a imprensa da época, chorando, que finalmente entra em concretização a Unidade da Europa, que foi a Europa Ocidental, numa data em que George Ball vaticinava a divisão do globo em zonas que seriam as seguintes: EUA, Rússia, Europa do Leste, a Ásia e a África. Nesta data, a União Europeia tem um passado notável, mas de quando em vez uma crise, que surgirá, por exemplo, principalmente jurídica, como quando a Polónia e a Hungria, usando a legalidade que os textos julgaram que lhes conferem, exigiram unanimidade, pelo que não aprovaram logo as propostas financeiras, com prejuízo global, invocando que "o respeito pelo Estado de direito" faz sentido, e por isso exigiram ser reconhecida a invalidade, aos membros do organizado Estudo de Recuperação, exigido sobretudo pela crise causada pelos efeitos da destruidora epidemia.

Talvez seja útil pensar em factos que condicionaram a pluralidade de vistas, do futuro da União. Em primeiro lugar, durante dezenas de anos, cumprindo o aviso da voz de Churchill, tivemos duas meias-Europas. Na assembleia da ONU, Paul-Henry Spaak, em 1948, dirigindo-se à Rússia, disse: "Sabeis qual é a base da nossa política? É o medo, o medo de vós, o medo da vossa política, o medo do vosso governo."

O fim do sovietismo, em que teve importância o Projeto de Assis, os países que ganharam destruir o Muro tinham por ambição recuperar o poder soberano que em décadas tinham perdido. A sua ambição de liberdade não era a mesma dos fundadores da União ocidental, nem a experiência. Não foi apenas nos EUA que um presidente não se deu conta de que a estrutura internacional, definida na Carta da ONU, tem de ser revista, se conseguir alterar a paz.

O famoso Hans Küng, no seu Islão (2010), estabelece a diferença entre "essencial" dos princípios e "paradigma", para compreender a história vigente na época. Talvez Ortega (1883-1955) preferisse "circunstância", porque a União enfrentou uma oposição não prevista em nenhum dos textos reguladores, situação (A Rebelião das Massas, 1930) que talvez assim chamasse, para ser interpretada, como a experiência histórica dos contraditórios, isto porque era a "moderna época de democracia ocidental" que todos os povos integrados tarde na União estão ainda corrigidos pela sua nova "circunstância".

O bom senso governativo da União Europeia encontrou solução para ultrapassar uma circunstância também trazida pelos "cisnes negros" que de quando em vez perturbam os princípios. A pandemia é seguramente o mais negro dos cisnes, que torna difícil generalizar a previsão de que toda a ordem internacional, consagrada pela fundação da ONU, da UNESCO e da União, vai defrontar-se com a circunstância exigente de reorganizar a paz orientada pela justiça natural. Tal incidente ajuda à compreensão desse desejado futuro, que finalmente respeitará um centro de valores comuns.

Desejamos que os EUA recuperem o dever e a responsabilidade, não admitindo um futuro regresso à experiência a que foram submetidos nos últimos quatro anos, cujo passado tenta recuperar o movimento.

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