O comboio vai de carrinho

O ministro Pedro Nuno Santos gosta de comboios, mas talvez não saiba que a história começou mal. Conta a marquesa de Rio Maior, sobre a primeira viagem de comboio em Portugal, que boa parte dos convidados de D. Pedro V nem assistiu ao foguetório que os esperava no Carregado: uma das duas locomotivas avariou a meio caminho, e a que sobrou, sem "força para puxar todas as carruagens atreladas, foi-as largando ao longo da linha".

Mais de 160 anos depois, o problema já não está só no comboio, mas na ferrovia. Um estudo que escrutinou a frequência da utilização, a qualidade e a segurança da infraestrutura ferroviária atribui-nos o segundo pior desempenho da Europa. A própria rede, iniciada com Fontes Pereira de Melo, é hoje menor do que no início do século XX, coisa que faria corar de vergonha o velho António Maria!

Assistimos, em mais de 40 anos de democracia, ao maior desinvestimento de que há memória na ferrovia portuguesa, em contramão com toda a União Europeia. Em nome da sustentabilidade, encerrámos quase 2 mil quilómetros de via-férrea, uma política particularmente devastadora no norte do país. Desdenhámos da solução proposta há 20 anos por João Cravinho, que previa o "T deitado", uma linha de alta velocidade Lisboa-Porto com uma saída a meio para Madrid. E de permeio iniciámos um dos maiores fracassos da história da ferrovia nacional: a modernização da Linha do Norte, que se arrasta penosamente muitos milhões e muitos anos depois.

Portugal tem hoje os mesmos quilómetros de caminhos-de-ferro que em 1893. Crescemos em autoestradas o que perdemos na ferrovia. Temos 1,17 quilómetros de autoestradas por cada quilómetro de linha férrea, mas estamos a 2 mil quilómetros dos nossos principais mercados e não há uma tonelada de mercadorias exportadas via terrestre que vá de comboio para lá da fronteira. Vai e vem tudo de camião e não há conversa sobre competitividade que convença o pagode. Se pensarmos que só nos últimos cinco anos a empresa pública que gere a via-férrea pagou três vezes mais em rendas às antigas Scut rodoviárias do que o valor investido na ferrovia, estamos conversados. O comboio ainda vai de carrinho. E com portagem.

É este quadro que o ministro Pedro Nuno Santos quer inverter, para "corrigir o erro histórico" que tem condenado ao desprezo o meio de transporte mais amigo do ambiente. No momento em que a União Europeia aponta metas que preveem triplicar o número de passageiros em comboio de alta velocidade e duplicar o tráfego ferroviário de mercadorias até 2050, o novo Plano Ferroviário Nacional, lançado há uma semana e em discussão pública por mais um ano, volta a anunciar a alta velocidade Lisboa-Porto e dá agora prioridade ao seu prolongamento até Vigo, em vez de Madrid.

A ambição de Pedro Nuno é pôr o caminho-de-ferro na base da mobilidade dos portugueses. Daí o objetivo de levar comboios a portos e aeroportos, ligar todas as capitais de distrito e ainda a um conjunto de cidades com mais de 20 mil habitantes, sem descurar as ligações a Espanha e ao centro e norte da Europa. Anotamos o compromisso.

Jornalista

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