O cântico dos populistas

O populismo ganha escala e assume um protagonismo no Mundo que se acreditou ser impensável em pleno século XXI. Apesar de ao longo da nossa história serem já alguns os fenómenos que levaram à ascensão de líderes populistas e acharmos que estamos todos vacinados contra esta febre insana, os casos repetem-se. A 15 de julho de 2016 Erdogãn é eleito na Turquia, segue-se a vitória de Trump nos Estados Unidos da América e mais tarde surge a consagração de Bolsonaro no Brasil. Num curto espaço temporal algumas potências mundiais cedem ao populismo ou a algo ainda mais grave.

Conseguimos reconhecer este padrão de insanidade política a que todos chamamos de populismo crescente, que nos inquieta sempre que um líder populista inflama uma multidão com discursos absurdos e mentiras reiteradas. Num primeiro momento, é difícil perceber como perante ideias tão descabidas há gente que as siga e as aplauda, espantando-nos.

Se já vamos concebendo que o populismo não é uma ideologia, mas sim uma estratégia perversa, então dediquemo-nos a entender o mais importante, o que faz os cidadãos seguirem e apoiarem esta via, mesmo após a queda estrondosa e terrorífica de Trump. Pois, pouco importa se Viktor Órban, da Hungria, for derrubado amanhã ou que o Ventura, de Portugal, se demita por ter ficado atrás da Ana Gomes nas eleições presidenciais, apesar das vitórias para a democracia que isso represente. As pessoas a quem as suas mensagens dizem muito continuaram disponíveis, para seguir as mesmas ideias e ordens por figuras semelhantes.

Há padrões recorrentes deste fenómeno que devemos conseguir identificar e para os quais
temos de estar preparados, para "não adormecermos em democracia e num dia acordarmos em ditadura".

Nestas eleições presidenciais, líderes e figuras populistas assumem-se como a voz do "povo real", retaliando ferozmente com os demais candidatos, apelidando-os de representantes das elites e de coniventes com a corrupção e promessas falhadas, ao mesmo tempo que dispersam a discussão política para as redes sociais, nas quais a desinformação e as fake news assumem um protagonismo gigantesco na era da informação e do digital.

Nesta medida, entendo ser fundamental a proximidade dos agentes políticos democratas com os cidadãos e a capacidade de terem um discurso político diferenciado e factual, sem cansar com o politicamente correto, pois é de meias verdades, que colocam maiorias contra minorias, de que vive o populismo. É preciso ser capaz de se dizer o que vai na alma com a prudência necessária sem acirrar ânimos e não criticar quem apoia tais movimentos populistas, impedindo que a vitimização faça parte da retórica política dos seus líderes.

Além do discurso político diferenciado urge oxigenar a política e em particular os partidos, na mesma medida que estes movimentos crescem assentes na vontade de derrubar o poder instituído, isto é, os mesmo de sempre que lideram e governam. Deve por isso ser uma prioridade a integração no sistema político de mais jovens e novos rostos com provas dadas, assente na premissa, que há muito defendo, de que ninguém é insubstituível, independentemente de bons desempenhos.

Os populistas, na sua maioria, escondem por detrás do tão característico sorriso sardónico e pretensioso, ideologias extremistas, castradoras de liberdades e promotoras de um conservadorismo bafiento, que nos deve inquietar a todos, nomeadamente, aos que acreditam na liberdade, na democracia e nos direitos humanos.

A esta jovem geração, que se assume mais inclusiva, menos conservadora e defensora de uma efetiva igualdade de oportunidades, vale-lhe o sentido de missão e a experiência associativa, que lhe dão o pensamento crítico e os horizontes necessários para celebrar a diferença, agir contra as injustiças e respeitar as causas, ideias e crenças de cada um. Assim, a democracia ganha alicerces contra fenómenos promotores do ódio, das desigualdades e de falácias.

Contudo, estas eleições presidenciais serão novamente uma rampa de lançamento para a
ascensão e disseminação destes movimentos populistas. Cabe-nos a todos nós, cidadãs e cidadãos, e em particular à juventude, votar conscientemente, para reforçar a nossa democracia e preservar a liberdade de todos, inclusive daqueles que a põem em causa.

Presidente da FNAJ - Federação Nacional das Associações Juvenis

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