O aviso do pântano

No fim da Guerra Mundial de 1939-1945, a vontade de construir um futuro que impedisse de novo uma catástrofe teve responsáveis do nível de Marshall, cujo espírito (1947) de ajuda económica aos Estados europeus abrangesse vencedores e vencidos, e estadistas que admirei, como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, inspiraram o Tratado de Roma (25 de março de 1957), pondo a unidade em vez da retaliação, ao mesmo tempo que a descolonização sagrou homens como Mahatma Gandhi e Mandela que foram apóstolos e mártires do pacifismo da evolução que, segundo o famoso Teilhard de Chardin, em L'Avenir de l'Homme (1959), estávamos perante "unificação, tecnificação, racionalização crescente da Terra Humana", que implicava uma chamada "socialização do mundo, que exigiria uma conduta associada, designadamente para a explosão demográfica, a fome, a domesticação da energia atómica, a paz, realidades indivisíveis para todos os povos.

Depois da Revolução de Abril, foram várias as vozes de portugueses participantes nas responsabilidades da gestão dos serviços da ONU. Na data em que nos encontramos é uma voz responsável do secretário-geral, António Guterres, que insiste no aviso fundamentado de que a ordem entregue à ONU está ameaçada de destruição pelo "pântano". Não se trata apenas de riscos do planeta como tragicamente está a passar-se com a ilha de La Palma, nem só da forma de guerra que a covid-19 desencadeara sem diferenciar as várias etnias e políticas dos Estados, e antes a destruição da ordem internacional. Nesta convém talvez não ignorar-se a retirada da Inglaterra da União Europeia, sendo da história da ONU que a voz do secretário-geral seja a que movimente a defesa ou a reformulação das circunstâncias globais.

Um dos secretários-gerais inesquecíveis é Dag Hammarskjöld que no Day Concert da ONU, em 24 de outubro de 1960, se mostrou seguro de poder consolidar a função na comunidade internacional, e nesse dia comentando a 9.ª Sinfonia, que "no último começo do último movimento ouvimos a repetição dos vários temas, agora como um poema para uma síntese final". No ano seguinte, o seu avião foi abatido no Zaire, quando se deslocava, por dever do cargo, em relação à intervenção militar da ONU, morria, deixando a execução que iniciara da natureza do cargo. Nesta sua intervenção, no cargo ficou incluída a intenção de conseguir, para a harmonia global, a cooperação das várias religiões, com uma sala onde havia um altar, em mármore, sobre o qual brilhava uma luz vinda do alto, e destinada essa instalação à meditação de todas as religiões. A única circunstância que parece sublinhar a intenção é que, sucessivamente, o Papa católico, como já se confirmou com a audiência do eloquente Papa Francisco, ainda estando vigente o movimento de Assis, em que o Papa João Paulo II conseguiu ter presente na missa representantes de várias religiões, e também representantes das instituições de várias nacionalidades, numa das quais a voz portuguesa foi o discurso de Mário Soares. Quando no Dia das Nações Unidas de 1992 foi publicado o documento chamado Uma Agenda para a Paz, o autor foi o secretário-geral Boutros Boutros-Ghali em termos de se "assumir um primeiro responsável" pelo cargo numa nova era em que se verificou a queda do Muro de Berlim, sendo já visíveis variantes na América Latina, na África, na Ásia e na Europa.

É nesta tradição que se inscreve a atual responsabilidade assumida pelo secretário-geral, insistindo com clareza, e dever, na ameaça de a ONU ser forçada, pela desordem mundial, a caminho do "pântano". Não se trata apenas de memórias da descolonização que preocupam Macron, nem de questões parciais da geopolítica como foi o Brexit do Reino Unido, da reunificação como na Irlanda, mas do crescente risco dos complexos mundiais das competições que implicam as redefinições das alianças que inspiraram as atuais, o que implica a perceção da previsível quebra da paz, que será o maior risco dos pântanos. O aviso lembra que o projeto da ONU, incluindo a Carta e o complemento essencial da Declaração Universal dos Direitos Humanos, foram escritos por mãos ocidentais, visando evitar contradições conflituosas entre áreas culturais, étnicas ou religiosas. Eliminações que os ocidentais criavam para "o resto do mundo" no qual os apelidavam de "os maiores agressores dos tempos modernos". Era a submissão ao regime colonial que mais destacava, mas a exploração económica não era esquecida.

Se na Carta da ONU e na Declaração de Direitos era o "credo dos valores" que se proclamava, sobrepondo-se ao "credo dos interesses", o "pântano" será a igualdade no desastre. A justiça natural exige que vozes criativas consigam paralisar as vozes dos responsáveis pelo ameaçador desastre.

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