O aviso contra a desordem

O ilustre escritor que é José Carlos Gentili, presidente honorário da Academia de Letras de Brasília, escreveu, entre os seus numerosos textos, um livro intitulado Lagoa dos Cavalos (2012), um romance histórico do Brasil, que Adirson Vasconcelos sintetizou escrevendo: "Levanta e discute temas de ontem e de hoje que nos levam a pensar na igualdade de direitos, na liberdade de pensamento e na solidariedade humana." Este "contar a história do povo nordestino" implicou citar, na própria capa, um grito humano do padre Cícero Romão: "É preciso dar um basta à anarquia."

A evolução das governanças desde os EUA até ao sul onde o Brasil fez sempre lembrar a articulação do pensamento de futuro entre o abade Correia da Serra, que participou na criação da Academia das Ciências de Lisboa, e o seu amigo Thomas Jefferson (1743-1826), lavrando o pensamento sobre a ordem que cada uma das soberanias apoiaria respetivamente no sul e no norte, é a inquietação do padre Cícero Romão que mantém vigor neste século sem bússola. Primeiro porque os EUA já conseguiram, pelo exercício da presidência como primeiro elemento da causalidade, que se traduziu no aviso "L'Amérique saise par la folie" (Thomas Frank, 2020), e depois o movimento político do sul do continente, que finalmente articula a perda de sentido dos pensamentos do abade Correia da Serra e de Jefferson, este presidente dos EUA (1801-09). Não é sem causa reconhecer que os vencedores da Guerra de 1939-1945 tinham assumido a experiência do terrível confronto, não apenas adotando uma cooperação económica, científica e cultural para reformular a ordem ética e jurídica global, mas de tal autenticidade que não pudesse esta ser destruída por intervenção da leviandade de que Otto von Bismarck (1815-98) avisara do perigo. Infelizmente a ONU, fundada apenas por ocidentais, organizou o Conselho de Segurança com uma posição aristocrática, dando o direito de veto, inspirado pelo poder, a cinco (EUA, Inglaterra, França, Alemanha, China) com o erro de manter fora o governo vitorioso da China, dando a representatividade a Taiwan, onde se refugiaram os vencidos exércitos do vencido Chang Kai-shek, levando anos a receber a presença de Pequim.

Mas um dos problemas mais desafiantes, objeto de várias declarações do Conselho de Segurança entre 1991 e 1994, designadamente por efeito da intervenção no Kosovo, tornou evidente que continuava o conflito do acomodamento entre soberanismo e cosmopolitismo, que levou o presidente Clinton (EUA) a declarar que os interesses dos interventores não podem deixar de ser considerados. Todavia, tinha-se admitido a criação dos tribunais internacionais, que punissem os crimes violadores da Justiça comum, em que se destaca o Tribunal de Nuremberga (1945) para julgar, com lei retroativa, os crimes da guerra finda, e, prevendo outras instituições, chegando à criação do Tribunal Penal Internacional, que recebeu forma pelo Tratado de Roma, a 17 de julho de 2000, com resistência dos EUA e da China que não querem os seus soldados combatentes julgados por instâncias não nacionais, que inspiram casos como os referidos pelos United World Federalist e World Peace Through Law.

Todavia, sempre pareceu, a várias correntes de devoção, que foi mais importante a inspiração de João Paulo II para apelar à união das Igrejas a favor da paz em termos do que passou a chamar-se Nova Mensagem de Assis, e sendo discutido o conceito de que o fim da história, que defende os modelos americanos no domínio da economia, e dos direitos humanos, caminhava para a crise da própria utopia da ONU, visto o número de conflitos graves que se multiplicaram, e hoje sem poder negar que a comunidade mundial se encontra a admitir novo ordenamento sem unanimidade.

Infelizmente, a crise da pandemia, que atinge todos os seres vivos, sem diferença de etnia, religião ou poder político, não conseguiu alinhar globalmente a novidade da ofensiva da covid-19, que na vida interna dos Estados, como se está a passar visivelmente com a França, acrescenta o desacordo violento com islamitas; na América Latina, além dos efeitos das lutas pelo regime, sempre se destaca o drama dos emigrantes; na Etiópia o governo pretende acabar a guerra civil com a ação que chama "retorno à ordem pública"; no Irão praticou-se o perigosíssimo assassinato, que os governantes estão convencidos ter mão estrangeira, e assim por diante. Os responsáveis pelo combate científico inesquecível encontram ferida a paz, porque o Tribunal Penal Internacional declarou, por acórdão, que não investiga crimes contra a humanidade porque nenhum Estado coopera. O então presidente dos EUA considerou isso um triunfo.

O aviso crescente é a ainda falta de confiança das populações sobre a justa utilização do saber científico respeitado. A paz e a confiança tornaram-se violadas, de tal modo, que O Profeta, de Kahlil Gibran (1923), avisava que "uma voz não pode carregar a língua e os lábios que lhe dão asas. É sozinha que deve procurar o ar", e a voz da ciência, que tem de ser respeitada, começou a comunicar saber que é o planeta que já está em risco. É tempo de considerar solidários todos os povos.

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