O asilo dos políticos

Por favor, venham todos para a política. Quantos mais, melhor. O resultado de tantos se terem distanciado da vida partidária e da intervenção pública está à vista: a coisa ficou entregue a um punhado de sociopatas e videirinhos cujo único objectivo é servirem-se a si mesmos e delapidarem o bem comum.

Só esta semana, enquanto o país rasga as vestes e arranca os cabelos perante o caso Sócrates, a Grande Porca, como lhe chamava Bordalo, engordou bastante. Vejamos: em 2018, o fisco (que ao contribuinte comum não desculpa um cêntimo) perdoou mais 125 milhões à Brisa, cujo presidente da assembleia-geral era António Vitorino. Como Roma não paga a traidores mas remunera bem seguidores, esse mesmo histórico socialista foi depois escolhido pelo governo para o cargo de director-geral da Organização Internacional para as Migrações, sendo apresentado como um "profundo conhecedor" da pasta. Desconhecem-se tais pergaminhos e o seu entendimento parece ser mais sobre as migrações de dinheiros públicos: sabe-se agora que o Executivo de Costa comprou votos para que Vitorino chegasse a essa sua cadeira de sonho. Final da história? À portuguesa, como com o contabilista de Salgado, o motorista de Sócrates ou o funcionário da ministra da Justiça (caso procurador europeu) - quem se lixa é o mexilhão: processo disciplinar para a secretária. Mas poucos ligaram a este recente episódio da nossa vivência colectiva, até porque logo escorreu mais ração para a porqueira: uma presidente de câmara do PSD que se aliou a um deputado do PS para outra moscambilha; a notícia de que Salgado terá usado a mulher de Marcelo para o comprar (não há reacções?); outra vez vários deputados a serem investigados por darem moradas falsas no Parlamento, de molde a sacar subsídios de deslocação (irão devolver o que roubaram?). De resto, entre a falsificação de documentos da deputada Hortense até à aldrabice do CV da deputada Begonha, passando pelos biscates feitos à Omni pela deputada Joana Lima, no que à ética do Parlamento diz respeito, estes últimos tempos têm sido bem sombrios.

Fazem-se mais leis? Regulações? Muda-se a mentalidade? Enfim, como se combate esta gangrena que nos vai comendo as pernas e tirando o ar? Claro que mecanismos mais robustos, entidades de fiscalização independentes, limites para os mandatos dos deputados, outros mecanismos de listas para a AR, são preciosos e urgentes. Mas, infelizmente, também são sempre contornáveis por elites obstinadas em viver acima da lei. O caminho e parte da solução passam, inevitavelmente, pela exigência cidadã e cívica. Deixar a política entregue a cliques e caciques, não votar, limitar-se a vociferar nas redes sociais aliviando a bílis e a consciência, desistir de acompanhar a vida partidária, encolher os ombros, enfim, tudo isso é parte do problema. Já está estafada a citação do Torga, mas mais actual que nunca: "O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados." É isso mesmo. É com essa moleza que os dinásticos e as castas contam. Temos que passar a colectividade revoltada de pacíficos. Ao poder do mexillhão. Venham.

Psicóloga clínica

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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