O aristocrata cristão Fernandes Thomaz (1943-2021)

Corria o ano de 1996 e um voo estava prestes a descolar do aeroporto da Portela. A meio da pista, todavia, deu-se uma súbita paragem. No avião, que ia cheio, os passageiros olharam uns para os outros, entre a surpresa e a expectativa de uma explicação. Esta tardou menos do que o destino, que era a Madeira. Dos altifalantes da aeronave, ressoou a voz do comandante, informando que havia um problema com uma das portas, que seria necessário recuar e aguardar pelo pessoal da manutenção. Entre os suspirares de tédio, os olhares para os relógios de pulso e os desapertares de cintos de segurança, um cavalheiro sublimemente vestido ergueu-se do seu lugar e comunicou à hospedeira mais próxima: "Desculpe-me, mas eu já não vou." A tripulação assegurou-lhe que "estava tudo bem" e respondeu-lhe com pedidos de "calma", aos quais o senhor, nunca levantando o tom, retorquiu com autoridade: "Eu estou muito calmo e não há problema nenhum, mas faça-me o favor de pedir um carro, que eu neste voo não vou."

À beira do cavalheiro, de seu nome Nuno Fernandes Thomaz, estava o então presidente do CDS, Manuel Monteiro, também tentando persuadi-lo a não desistir da viagem, que levaria a bancada e a direção centrista às jornadas parlamentares desse ano, no Funchal. Thomaz, com amizade, prometeu-lhe: "Não se preocupe que eu vou lá ter, mas não hoje, que não estão reunidas as condições." E, de facto, cumpriu, chegando à Madeira no dia seguinte, de avião, mas sem ansiedades no que toca a portas.

Os que presenciaram o episódio recordam-se não só da cordialidade com que Fernandes Thomaz lidou com o insólito ("Poderia cair um telhado, que ele permaneceria impávido") como da sua capacidade de mobilização junto dos que não o conheciam, tendo vários passageiros seguido o seu exemplo e abandonado aquele voo sob murmúrios de reconhecimento. "Aquele senhor é que sabe." E sabia, ainda que os restantes democratas-cristãos tenham aterrado nesse dia, sãos e salvos, no arquipélago.

Nuno Fernandes Thomaz nasceu no dia 5 de agosto de 1943 e faleceu na madrugada de segunda-feira, aos 77 anos. Dono de um percurso distinto no setor empresarial, regularmente ligado ao Grupo Mello, foi um impulsionador da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Nova, assumindo vários cargos relacionados com o seu desenvolvimento. Foi também vice-presidente do Fórum para Competitividade e colunista do semanário Económico, onde escreveu diversas vezes contra "o nacional-porreirismo". O "estado a que isto chegou" era uma sua expressão frequente. Era um liberal conservador, antes de estes aparecerem, numa época em que a direita desconfiava do cavaquismo.

Entre os seus contemporâneos, o sentido de humor é uma das suas virtudes mais elevadas, e um deles testemunhou-o de perto. Na tomada de posse do filho, Nuno Maria, como secretário de Estado no mandato de Durão Barroso, terá comentado para um amigo igualmente presente, sobre um dos ministros empossados: "Este só exigiu uma condição para ir para o governo: ser convidado."

Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota emitida na sua página oficial, recordou-o como "um homem de causas", mencionando igualmente "uma brilhante carreira na gestão privada". Manuel Monteiro, que o convidou e teve como primeiro vice-presidente no CDS, recorda-o como "um grande cavalheiro" e senhor de uma "enorme tranquilidade" na vida pública. "Nunca procurou cargos, nem quis ser deputado. Com a sua liberdade, emprestava algo que faz muita falta à política", lembra. "Dizia sempre o que pensava, nunca perdendo a forma institucional", conclui, com estima.


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