O aporófobo

Paulo Guedes, o ministro da economia de Jair Bolsonaro, decretou o fim da verba para o Censo brasileiro "porque quem muito pergunta ouve o que não quer", decidiu taxar os livros "porque só os ricos leem", disse que "o chinês inventou o vírus" e considerou, na esteira do presidente, a primeira-dama francesa "feia mesmo".

E este admirador da condução económica do Chile sob o ditador Pinochet é visto como um oásis de sapiência no meio do deserto de burrice do governo do Brasil, tratado até, ao contrário de Bolsonaro e da ala desmiolada do executivo, com condescendência pela grande imprensa brasileira, nas mãos de poderosos grupos empresariais tão ultraliberais como ele.

Mas Guedes é para aqui chamado, não por causa de ataques às mulheres, à China ou à inteligência, mas por ser hoje o porta-voz oficial da aporofobia, um dos desportos preferidos da terceiro-mundista elite económica brasileira.

Aporofobia é um neologismo inventado pela filósofa espanhola Adela Cortina que junta os termos gregos "à-poros", pobreza, indigência, e "fobia", medo, rejeição, ódio.

Sobre o aumento da expectativa de vida dos compatriotas, o aporófobo Guedes queixou-se na semana passada de "todo o mundo agora querer viver até aos 100, 120, 130 anos". "E todo o mundo vai procurar serviço público [de saúde] e não há capacidade instalada no setor público para isso. Vai ser impossível".

A propósito do auxílio aos mais carentes na pandemia afirmou, numa reunião com empresários: "Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha. Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo". O auxílio em causa era de 600 reais (menos de 100 euros) por decisão do Congresso já que Guedes queria distribuir 200 (menos de 33).

Um mês antes, ainda sobre o impacto da pandemia na economia, disse em Conselho de Ministros que o Brasil "ganha dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias e perde dinheiro salvando empresas pequenininhas".

Num país onde 16 milhões de famílias auferem 411 reais por pessoa (62 euros) e 13 milhões, 778 (118 euros), segundo dados do tal Censo que o ministro quer calar, lamentou que "os pobres não saibam economizar". "Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo".

Foi ainda crítico do Fies, um programa dos governos anteriores que atraiu estudantes para faculdades privadas com crédito mais barato, democratizando a educação: "O porteiro do meu prédio um dia me falou 'doutor Paulo, meu filho fez vestibular [prova de acesso universitário] e olha a carta que recebi'. A carta dizia 'parabéns, o senhor foi aprovado com média...' e tinha um espaço. Era uma carta padronizada. E no espaço a média zero. Então claramente houve excessos".

E sobre o dólar, cujo preço chegou a estar abaixo de dois reais nos governos do PT e hoje bate nos 5.5, relativizou o aumento. "Antes [com o dólar acessível] era empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada".

Ou seja, Guedes quer os pobres a morrer cedo, para equilibrar o défice, a poupar o nada que ganham, vendo definhar as suas microempresas, se as tiverem, e quietinhos no seu lugar sem poluir os aeroportos e as universidades privadas, exclusivas dos ricos como ele.

O projeto de quem foi às ruas pedir o impeachment em 2015 sempre foi este - e houve quem pensasse que era "contra a corrupção".

Jornalista. Correspondente em São Paulo

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