O antimoderno

Na Rua de São Bento, dava-se um almoço anual. Numa morada apalaçada, adquirida decadente mas feita bonita pelo anfitrião, reuniam-se o professor e respetivos assistentes. No repasto, de data certa no dia do santo que partilhava o nome com o decano, Pedro Soares Martinez cultivava a relação com os seus discípulos do Direito. Deles, há três impressões que prevalecem após o seu desaparecimento, aos 95 anos, há escassos dias. A primeira, a perseverança das suas convicções, mesmo que ultrapassadas pelo tempo e pelo regime em vigor. A segunda, o seu sentido de humor, provocador e, por vezes, até autodepreciativo.
A terceira, uma tentação algo cruel no que a avaliações diz respeito. "Deu-me cabo da média" é, eventualmente, o comentário mais repetido; a maioria, com um sorriso amargo, mas órfão de rancor.

Era, mais do que um conservador, um tradicionalista. E, tanto quanto um tradicionalista, um reacionário. "A estrutura de pensamento dele era a do século XVII", narra um próximo. Fugazmente ministro da Saúde durante ano e meio num governo de Salazar, era um admirador do ditador, ainda que convictamente monárquico. "Marcello Caetano estava à sua esquerda", descreve outro contemporâneo.

Nas palavras do historiador Jaime Nogueira Pinto, que foi seu aluno e com quem conviveu no exílio, em Madrid, nos anos 1970, Soares Martinez "manteve-se fiel ao seu núcleo de valores ético-políticos" num país "mais depressa dado à adaptação do pensamento e da ação às conveniências e ao autoencobrimento e revisão oportuna do próprio passado".

Entre o mito e a caricatura, há episódios que o comprovam. Quando regressa à Clássica após o afastamento a seguir à Revolução, um assistente lembra-se de o ver junto a uma urna, na eleição para os órgãos diretivos da faculdade, e de ouvi-lo dizer: "Eu estou aqui, mas sou contra o princípio democrático." Num dos tais almoços no dia de São Pedro, outro assistente, mais bajulador, terá inquirido desaforadamente: "O senhor professor não tem medo de andar na rua, que isto agora é só negros?", obtendo uma resposta igualmente inusitada: "Medo? De quê? Eles não sabem que eu sou racista." De igual modo e no mesmo círculo, corria a dúvida sobre qual dos assistentes seria o preferido do professor. O próprio chegaria a revelá-lo, entre Paulo Pitta e Cunha, Alberto Pinheiro Xavier e Sousa Franco, preferia o último por uma razão: "É o único em que aquilo que digo não entra por um ouvido e sai pelo outro", sendo que Sousa Franco, como é sabido, era privado de uma orelha.

Quanto ao dito terror avaliativo, há quem confirme e quem não desminta. A adição aos detalhes (o chamado "tiro-à-data") tornou-se conhecida. "Qual foi o Produto Nacional Bruto em 1957?", perguntava. "Não sei, senhor professor." "Não tem problema nenhum. Eu faço outra pergunta", prometia. "Então diga lá: qual foi o Produto Nacional Bruto em 1958?" é uma das mais citadas.

Martins da Cruz, seu antigo aluno e de passado igualmente diplomático, salienta que Soares Martinez "não saía de tom". "Era um professor do antigo regime, não destoava." Para Alberto Costa, ex-ministro da Justiça e também antigo aluno, os pormenores históricos eram uma constante. "Lembro-me de ver referências ao Egito Antigo numa sebenta de Economia Política." Carlos Blanco de Morais, catedrático da FDUL, destaca as suas "invulgares capacidades culturais e intelectuais" e a obra deixada. José Lamego, professor universitário e ex-deputado do PS, conta: "Antes do 25 de Abril estivemos em campos opostos; o professor como diretor e eu como dirigente estudantil. Quando, mais tarde, fui seu assistente, mantivemos uma relação de respeito." E "campos opostos" não é um eufemismo, tendo sido durante a direção de Soares Martinez que estudantes sofreram uma carga em resposta a um protesto.

Do lado oposto da barricada, na altura, estava também Saldanha Sanches, de quem, numa prova de pluralismo, seria professor, amigo e admirador, estando, neste momento, possivelmente a retomar a conversa que frequentemente trocavam no bar da Faculdade de Direito, na Universidade de Lisboa.

Colunista

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