O acaso e a necessidade

É dos castelos mais estranhos do mundo, mas belo como poucos. A planta octogonal, com torres também elas octogonais em cada uma das oito extremas ainda intriga os especialistas, surpreendidos com um edifício que, pela pequenez, chegou a ser tido como um pavilhão de caça, não mais. Sabe-se hoje que em seu redor existia uma muralha e que, portanto, aquele era mesmo um castelo, ainda que bizarro e estranhíssimo, mas belo como poucos. Tem uma geometria única, toda assente no número oito: um prisma octogonal com oito torres, um pátio interior com oito faces, cada um dos pisos com oito divisões. Diz-se que o octógono é um símbolo intermédio entre o quadrado, representativo da terra, e o círculo, evocativo dos céus, mas nem esta tese cabalística permite explicar por inteiro a singularidade arquitectónica de Castel del Monte, que o imperador Frederico II fez edificar na Apúlia por volta de 1249, porventura inspirado no Monte do Templo de Jerusalém, que vira no decurso da Sexta Cruzada à Terra Santa. Um dos homens mais cultos do seu tempo, Frederico era fluente em várias línguas, autor de um tratado de falcoaria e, não por acaso, os cronistas coevos chamavam-lhe Stupor mundi ("maravilha do mundo").

Na verdade, o mundo, a maravilha do mundo, surpreende-nos a cada instante: não bastavam os enigmas de Castel del Monte, quando soube há pouco, ao ler o livro As Que não Morrem, de Anne Boyer (Tinta-da-China, 2021), relato lancinante da sua viagem oncológica, que um dos mais poderosos e mais destrutivos fármacos contra o cancro foi descoberto nas terras circundantes do castelo de Frederico II. Na década de 1950, uma empresa farmacêutica italiana, a Farmitalia, iniciou a busca de elementos anticancerígenos nos micróbios dos solos, levando para Milão uma amostra de terra extraída em Castel del Monte, na qual os cientistas isolaram uma bactéria vermelho-viva, a Streptomyces peucetius, que bloqueia uma enzima responsável pela rápida proliferação das células. É letal, de extrema potência, e devido à cor chamam-lhe "diabo vermelho". Ou seja, no preciso local onde Frederico II decidiu erguer um castelo bizarro, existe uma bactéria que, ao destruir a vida, a proliferação celular, também salva a vida dos pacientes sujeitos a quimioterapia.

Não foi ao acaso que os cientistas procuraram esta substância, mas foi ao acaso que a encontraram ali, num lugar tão histórico quanto improvável. O imponderável, na verdade, ocorre a todo o instante e, num ensaio célebre, O Acaso e a Necessidade, publicado em 1971, Jacques Monod, nobel da Medicina e um dos fundadores da biologia molecular, sustentou que toda a vida na Terra se situa entre esses dois pólos, defendendo, entre o mais, que até as bactérias fazem escolhas racionais, o que nos leva à conclusão, decerto assustadora, de que a Streptomyces peucetius, o "diabo vermelho" que liquida a proliferação das células, decidiu e escolheu ter esse perfil destrutivo, exterminador. Uma maldição lançada por Frederico II? Ou, ao invés, uma bênção para os doentes de cancro?

Nada melhor (ou pior) do que o cancro para mostrar o papel que a sorte e o azar desempenham na nossa existência, por muita prevenção que façamos e por muito - e bem - que adoptemos hábitos e estilos de vida saudáveis. Olhando para certas biografias, encontraremos certamente o génio e o trabalho, mas também a sorte e o azar, circunstâncias fortuitas que desafiam qualquer lei das probabilidades: quem imaginaria que uma criança nascida a bordo de um comboio, nos confins da Rússia, com o pai ausente na frente de combate, iria pisar os palcos mais famosos do mundo com o nome de Rudolf Nureyev? Outro, mais óbvio, Lorde Curzon, nasceu numa família ilustríssima da velha aristocracia inglesa, mas foi um acidente de cavalo aos 15 anos que, deixando-lhe sequelas permanentes para a vida, o fez mergulhar no trabalho e na vida política como forma de esquecer as dores constantes que o afligiam. Com isso, chegou a ministro e a vice-rei das Índias. Sem a tragédia acidental da adolescência, provavelmente nada disto teria acontecido e Curzon seria mais um nobre ocioso de vida fácil, sem fulgor nem chama. Poder-se-ia recordar também que, dos seis colossos que dominaram a América, acumulando riquezas incalculáveis, só dois - John Pierpont Morgan e William Vanderbilt - nasceram em berços d'oiro. Dos outros quatro, John Jacob Astor, magnata do imobiliário, viu a luz na Alemanha, sendo filho de rendeiros; Andrew Carnegie, senhor dos telégrafos e do aço, nasceu pobre na Escócia; John Rockfeller, rei do petróleo, começou a vida a vender perus e como guarda-livros; Henry Clay Frick, deus do carvão, trabalhou numa lavandaria e estudou contabilidade. Muitas circunstâncias, pessoais e históricas, contribuíram para o seu êxito portentoso, mas no percurso de todos, sem excepção, encontramos a centelha da sorte, que os distinguiu de tantos outros iguais a eles, tão ambiciosos e audazes como eles, que ficaram pelo caminho, morrendo na obscuridade e até na miséria.

Há também casos inversos, gente que parece convocar nas suas vidas todo o infortúnio do mundo. Durante 21 anos, a fotógrafa Darcy Padilla acompanhou a trajectória de uma mulher chamada Julie Baird, que conheceu em 1993 no Hotel Ambassador, em São Francisco, um hotel imundo e decrépito onde, dada a sobrelotação dos hospitais, os serviços sociais da cidade despejavam doentes de sida. Julie era então uma jovem de 19 anos, quando tinha um ano a mãe fugira com ela da casa do pai, após mais uma cena de violência doméstica. Alcoólica, a mãe envolver-se-ia com vários homens, um dos quais violaria Julie, que aos 14 anos fugiu de casa e caiu na rua, afundando-se no álcool, na prostituição, nas drogas. Encontrou um rapaz, Jack, também prostituto e viciado em crack, e, quando Julie ficou grávida, descobriram que eram ambos seropositivos. Tiveram uma filha, Rachel, mas Jack acabou por morrer de sida. Julie teve mais um filho de pai incógnito, Tommy, até conhecer um novo companheiro, Paul, num asilo do Exército de Salvação. Paul acabaria preso por abusar de Tommy, o qual foi descoberto pelas autoridades coberto de vómito e sangue, com marcas de dentadas de adulto no torso e nas pernas. Os dois filhos de Julie, Rachel e Tommy, foram-lhe retirados para adopção e ela acabou por encontrar novo companheiro, Jason, de quem teve uma criança, Jordan. Quando se encontrava na maternidade, ao saber que os seus testes de droga tinham dado positivo, e com receio de que mais este filho fosse dado para adopção, Julie e Jason fugiram com o bebé, mas foram presos e condenados a nove meses de cadeia. Teriam mais dois filhos, ambos retirados à nascença. Julie e Jason fixar-se-iam no Alasca, onde levaram uma existência miserável, vivendo numa autocaravana, sem água canalizada ou electricidade. Tiveram mais uma filha, Elyssa, mas Julie adoeceu de sida, morrendo sozinha, em sofrimento extremo, numa madrugada de 2010. Tinha 37 anos. Mais tarde, o seu companheiro, Jason, seria preso por abusar sexualmente da filha, Elyssa, que foi dada para adopção, à semelhança de todos os outros cinco filhos de Julie Baird. Darcy Padilla acompanhou-a por mais de duas décadas, foi confidente, fotógrafa e conselheira. O resultado final desta amizade foi o livro Family Love, um documento fotográfico e humano devastador, galardoado com prémios diversos (v.g., o World Press Photo) e as mais prestigiadas bolsas de criação artística. Quando olhamos para vidas como esta, que não conheceram um instante de paz e sossego em 30 anos, é impossível não pensarmos na tremenda injustiça deste mundo, razão acrescida para lutarmos para que seja mais justo e mais digno. Mas, ao mesmo tempo, devemos agradecer aos deuses a bela vida que temos, por muito que nos queixemos dela, e dar graças pela sorte - sim, sorte - de não termos um destino idêntico ao de Julie Baird ou de milhões como ela.

A história de Julie Baird é contada num livro de Emannuel Carrère, Il Est Avantageux d'Avoir où Aller, colectânea de escritos e ensaios vários, um dos quais tem por tema, justamente, a questão do acaso e da necessidade, da sorte e do azar nos destinos humanos. Por mais inconcebível que pareça, houve um homem que entregou à sorte, à sorte pura, as mais importantes decisões da sua vida. Escreveu um livro de culto, The Dice Man (O Homem dos Dados), publicado em 1971 com o pseudónimo de Luke Rhinehart, um psiquiatra que defendia a máxima segundo a qual, sempre que tivermos de fazer uma escolha ou enfrentar um dilema, devemos lançar os dados e confiar no que eles nos digam. Para o sucesso do livro muito contribuiu não se saber ao certo se se tratava de uma obra verídica ou de ficção, ou ambas. Rhinehart apresentava-se como um psicanalista que vivia e trabalhava em Nova Iorque em meados dos anos 1960, que se interessava por yoga e livros de Zen, e que um dia, ao encontrar por acaso um dado de jogar no chão da sala, passou a usá-lo em opções difíceis (ex., se devia ou não atraiçoar a mulher com a vizinha esbelta...). Entusiasmado com o método, passou a aconselhá-lo aos pacientes - uns seguiram-no, outros mudaram de terapeuta - e o que começou por ser um divertimento inofensivo converteu-se numa obsessão tal que a mulher o abandonou e o seu consultório fechou. Para não morrer à fome, Luke tornou-se "guru dos dados", abriu os Centers for Experiments in Totally Random Environments, nos quais os participantes se inscreviam voluntariamente, com a condição de não abandonarem a "experiência" antes de esta terminar. Dos alvos desta terapia, uns ficaram maravilhados, outros enlouqueceram, outros ainda disseram ter alcançado o nirvana, pois a sua vida deixou de ser fonte de preocupações e angústias, passando a estar totalmente confiada ao que mandavam os dados. Os centros de Luke Rhinehart tornaram-se lugares perigosos, tão subversivos quanto o comunismo ou as viagens psicadélicas do Dr. Timothy Leary: quem se entregasse aos dados, ficava viciado, sequestrado no acaso, na aleatoriedade total, sendo incapaz, naturalmente, de fazer projectos de futuro e pensar a longo prazo, de planear ter um emprego ou uma casa, de se casar e ter filhos. Eis, sem dúvida, uma forma bem inventiva de subverter a sociedade convencional e burguesa, típica de uma época que venerava os hippies e as quimeras alternativas. Não se sabe bem como acabou a aventura, dizendo uns que Luke foi preso pelo FBI, outros que morreu incógnito, garantindo outros ainda que foi internado durante 20 anos num hospital psiquiátrico ou que se refugiu em Espanha, ao sol de Maiorca. O livro, esse, foi um sucesso tremendo, com mais de dois milhões de exemplares comprados em todo o mundo, e continua a vender-se bem. Luke foi um autor elusivo e esquivo, à moda de Salinger ou Thomas Pynchon, mas a sua identidade acabou por ser descoberta: vivia de facto em Maiorca, onde era professor de Inglês e morreu há pouco, em Dezembro de 2020.

O enredo do livro, sobre o qual ainda pairam diversos mistérios, mostra-nos uma coisa singela, mas decisiva: por muito que a sorte e o azar marquem as nossas vidas, não podemos entregar-nos por inteiro às incertezas do acaso e ao poder do aleatório. É curioso ver que, na sua incapacidade de projectar o futuro, as vidas dos seguidores do "método dos dados" não eram, ao cabo e ao resto, muito diferentes da trágica existência de Julie Baird, também ela incapaz de pensar o dia seguinte e de fazer planos para o amanhã. O segredo estará talvez, e como sempre, numa sábia combinação entre acaso e necessidade. Um equilíbrio difícil, sem dúvida, mas afortunados os que o alcançam. Com a Rússia às portas da Ucrânia, e o Ocidente a preparar-se para a guerra, é só o que ocorre dizer.

Historiador. Escreve segundo a antiga ortografia

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