No pasarán

A culpa foi toda de um padre. No dia 9 de Julho de 1931, com tremendo aparato mediático, uma chusma de gente acorreu à Gare du Nord, em Bruxelas, para esperar um jovem repórter acabado de chegar das Áfricas. Na varanda da gare, um adolescente louro, fardado de branco e de chapéu colonial, dirigiu-se à multidão expectante, de megafone em punho, agradecendo-lhe a presença e o apoio nessa sua nova aventura. Nas fotografias da época, vemos crianças de colo, jovens iguais ao repórter, mulheres de sorriso aberto, senhores de chapéus de palhinha. Talvez ele ainda não fosse o fenómeno de popularidade mundial entre os "jovens dos 7 aos 77 anos", como viria a tornar-se mais tarde, mas Tintim já tinha à época uma quantidade apreciável de fãs, que acorreram prontamente ao chamamento do jornal Le Vingtième Siècle. Num golpe de génio, o seu director, o padre Wallez, decidira promover o novo álbum do herói organizando uma grande festa e publicando como suplemento daquela revista um convite para celebrar o regresso de Tintim a casa. A campanha publicitária passou pela contratação do actor Henri De Doncker, um jovem sósia do repórter, e pela oferta de "uma valiosa peça artística congolesa" aos primeiros compradores do livro, além de um cortejo com animais exóticos alugados a um zoo. Não era, contudo, uma novidade absoluta, pois no ano anterior já se ensaiara um regresso hollywoodesco de Tintim à Bélgica, vindo do País dos Sovietes, com um sósia de carne e osso a desembarcar na place Rogier. Agora, no entanto, a coisa funcionou melhor, com mais adesão de público, e Tintin au Congo converteu-se num best-seller juvenil da década de 30, sendo reeditado várias vezes. Em 1934, a editora Casternan assumiu a publicação das obras de Hergé e, dez anos depois, deu-se à estampa a última edição do álbum a preto e branco.

No pós-guerra, em 1946, a obra foi reformulada, sendo expurgada das suas referências colonialistas mais óbvias, e, das 110 páginas originais, a preto e branco, fez-se uma nova edição a cores, com 62 páginas. Nos anos 60, o livro caiu num relativo esquecimento, ante a vaga descolonizadora que então corria o mundo, e, numa entrevista radiofónica de 1966, Hergé explicaria a sua génese, dizendo que Tintin au Congo nascera de uma sugestão do seu patrão da altura, o padre Norbert Wallez, director do jornal católico ultraconservador Le Vingtième Siècle (e um admirador de Maurras e de Mussolini, preso no pós-guerra por colaboracionismo com os nazis...), que se considerava coautor das aventuras de Tintin e que, não por acaso, recebia uma percentagem dos respectivos direitos. Fora dele a ideia de enviar o repórter à Rússia dos sovietes, para denúncia dos males do comunismo, como fora ele que, logo a seguir, instara Hergé a mandar Tintim ao Congo, para promover o esforço dos missionários católicos no território e para despertar novas vocações entre a juventude. Para o efeito, o desenhador muniu-se da literatura de viagens da época, foi à secção de artigos coloniais dos armazéns Bon Marché, passou horas no Museu de Tervueren a copiar os trajes dos Aniota, os "homens-leopardo" que se rebelavam contra o poder dos brancos. O resultado final, como o próprio reconhecerá, foi um álbum "paternalista", mas que só involuntariamente reflectia o espírito colonizador do seu tempo. Na verdade, Tintin no Congo é, inquestionavelmente, uma obra colonialista latu sensu, mas não constitui, de forma alguma, uma apologia militante da dominação belga do Congo, à sombra da qual se tinham cometido atrocidades horríveis num período anterior, o tempo de Leopoldo II e da "febre da borracha", como foi denunciado por muitos, com destaque para Conan Doyle ou por Mark Twain, com O Fantasma do Rei Leopoldo.

Então com 23 anos e em início de carreira, a tentar ganhar a vida como ilustrador de um jornal católico, Hergé passou completamente à margem dessas controvérsias. Diria mais tarde que Tintim no Congo foi um "pecado de juventude", uma fantasia infantojuvenil ligeira, e que, se a pudesse refazer de novo, criaria uma obra inteiramente diferente, desde logo com mais conhecimento da realidade africana. No entanto, e como seria notado pela revista africana Zaïre em 1969, em Tintim no Congo os negros são, na esmagadora maioria dos casos, os bons da fita e o jovem repórter luta, isso sim, contra o mal incarnado pelos brancos. De resto, em livros posteriores, como Coke en stock, de 1958, Hergé denunciara o tráfico negreiro que persistia no mundo e, na reedição de Le crabe aux pinces d"or, saído originalmente em 1940-1941, terá o cuidado de alterar a fisionomia de um dos vilões que atacam o capitão Haddock, que deixou de ser negro para assumir traços caucasianos.

Em Maio de 1970, quando Tintim no Congo foi novamente reeditado, apenas se ouviu uma voz crítica, a do anarquista belga Jan Bucquoy, que denunciou o livro como um "clássico da era colonial" e moldou um busto satírico de Tintim com feições negras. A provocação, no entanto, passaria quase despercebida. A bomba estourou apenas em 2007, quando Steven Spielberg quis fazer uma adaptação cinematográfica das aventuras do jovem repórter. Um advogado de Londres solicitou à comissão britânica para a igualdade racial que proibisse a venda de Tintin no Congo nas livrarias e, apesar da contestação de nomes de vulto, como o do desenhador congolês Barly Baruti, fundador de Afro-BD, a polémica estava lançada. Em Inglaterra, na Austrália, na Nova Zelândia, o álbum foi transferido nas livrarias para as secções de adultos, como se de obra pornográfica se tratasse; em Estocolmo foi intentada, sem sucesso, uma acção judicial para impedir a sua venda; o conselho representativo das associações negras de França considerou o livro "ofensivo", mas não conseguiu que o mesmo fosse imediatamente proibido de circular. Na América, a biblioteca municipal de Brooklyn decidiu retirá-lo das estantes, colocando-o numa secção de reservados, só acessível a investigadores ou a leitores informados, mediante marcação prévia. Na África do Sul, numa decisão equilibrada e sensata, impôs-se que o livro fosse vendido com uma cinta vermelha, advertindo que se tratava de uma obra potencialmente ofensiva para os leitores mais sensíveis. Um jovem congolês que estudava na Bélgica, Bienvenu Mbutu Mondondo, apresentou um queixa-crime contra o livro em Bruxelas, mas uma decisão judicial de 2010 considerou que ele não era uma obra intimidante ou geradora de violência.

Anos antes, em 1975, Hergé aceitara mudar uma das cenas da saga, a pedido do seu editor sueco, redesenhando o episódio bárbaro em que Tintim mata um rinoceronte a golpes de dinamite. O desenhador reconheceria, aliás, que o livro "retratava os africanos com os estereótipos burgueses e paternalistas da época", mas nem isso aplacou uma fúria censória que, note-se, alastrou por contágio mimético em vários pontos do globo, no espaço de poucos meses. Até ao filme de Spielberg, e durante décadas, ninguém se lembrara do "livro racista" de Hergé, que a maioria dos especialistas, de resto, consideram ser uma das suas obras menos conseguidas.

No mundo anglo-saxónico, especialmente nos Estados Unidos, Tintim no Congo é hoje um proscrito: à última hora, o editor norte-americano desistiu da sua publicação e a colecção das aventuras de Tintim é vendida e publicitada como se aquele título maldito nunca tivesse existido. Noutros países, e no que parece ser uma decisão sensata, o livro é comercializado envolto em celofane, com uma advertência sobre o seu conteúdo. Para esta solução muito contribuiu a prudência da justiça: na Bélgica, concluiu-se que a obra, podendo ofender alguns, não merecia ser proibida de circular numa sociedade livre, tal qual a literatura pornográfica e escandalosa ou as caricaturas de Maomé; na Suécia, o procurador-geral mandou arquivar uma queixa contra o livro de Hergé baseando-se num argumento formal, a prescrição do delito, mas dizendo, ainda assim, que a obra se encontrava protegida pelo princípio da liberdade de expressão - o que não impediu a biblioteca infantil da Kulturhuset, de Estocolmo, de a retirar das suas estantes, em Setembro de 2011, gesto que abriu um amplo debate no país, o "Tintim-gate".

Descrita ao pormenor num informativo livrinho das Éditions Moulinsart, as mesmas que publicam as aventuras de Hergé (Tintin au Congo de Papa, 2012), a história de Tintim no Congo é, apesar de tudo, uma história feliz, pois demonstra que, mesmo no seio da mais acesa polémica, é possível encontrar soluções moderadas e de compromisso, não enveredando por proibicionismos muito típicos no nosso tempo.

Há dias, soube-se que, no Ontário, no Canadá, as autoridades fizeram uma purga nas bibliotecas escolares, destruindo mais de 5000 mil livros, entre os quais de Tintim, Astérix e Lucky Luke, considerados "racistas" e "ofensivos para os povos autóctones". Foram ainda destruídas diversas enciclopédias e outros títulos, fazendo-se, à boa maneira da Inquisição ou do nazismo, fogueiras a céu aberto, a que os imbecis chamaram "cerimónias de purificação pelas chamas". As "cerimónias" tiveram lugar à porta de cada escola, para que os alunos vissem ao vivo e pudessem participar num gesto de barbárie que, doravante, mancha irreparavelmente a imagem do Canadá no mundo. A coisa, parece, não ficará por aqui, pois a comissão inquisitorial ainda só analisou metade das obras sob escrutínio, num total de 200 títulos suspeitos. Por outro lado, a pandemia atrasou algumas das "cerimónias" pirómanas, que irão recomeçar em breve (outras notícias dão conta de que os trabalhos foram suspensos sine die). E, como uma imbecilidade nunca vem só, o conselho escolar do Ontário decidiu usar as cinzas da chacina no plantio de árvores que simbolizassem um "país inclusivo onde todos podem viver em prosperidade e segurança". Num país onde se queimam livros, fazendo disso espectáculo, nada nem ninguém pode viver em segurança. A responsável por tudo isto, uma idiota de nome Suzy Klies, acabou vitimada pelas novas leis de Nuremberga e teve de se demitir há dias do conselho dos povos autóctones quando se descobriu afinal que... não tinha sangue autóctone a correr-lhe nas veias.

Todas as semanas surgem notícias cada vez mais aterradoras sobre os desmandos da cultura woke: censuras, proibições, policiamentos do discurso, destruições de estátuas, vandalismos no espaço público, académicos voluntariamente castrados, intelectuais cobardes, amedrontados, incapazes de resistirem à primeira provocação (como sucedeu, por exemplo, no lamentável episódio das traduções dos poemas de Amanda Gorman). Devemos combater o neofascismo cultural com o mesmo vigor com que enfrentamos os extremismos políticos, de direita ou de esquerda, pois eles são em tudo iguais, absolutamente idênticos no seu propósito de destruição da democracia liberal em que vivemos e da sociedade tolerante que tanto nos custou a erguer. É tempo de percebermos, de uma vez por todas, que André Ventura e Mamadou Bá são gémeos da mesma estirpe, têm ambos o mesmo intuito de provocar e de insultar, de semear ódios que impeçam o diálogo moderado, as soluções de bom senso e consenso. Por muito que se digam ou julguem diferentes, um e outro são iguaizinhos no pulsar tirânico − e, por isso, nossos mortais inimigos.

Para António José Cabral, com muita amizade

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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