No mundo da Lua

Agora, que um licitante anónimo acaba de pagar 23 milhões de euros para acompanhar Jeff Bezos ao espaço, começou a contagem decrescente para a sideral viagem. A partida será a 20 de Julho e, num leilão online realizado há dias, bastaram sete lances e breves minutos para encontrar o terceiro passageiro, que terá o privilégio de se sentar ao lado do multibilionário da Amazon e do seu irmão para uma excursão-relâmpago que durará não mais do que onze minutos, sem que aos tripulantes seja sequer concedido o direito de levantar-se do assento para ir à casa de banho. Feitos os cálculos, dá qualquer coisa como dois milhões de euros por minuto e o mais estranho de tudo é terem existido cerca de sete mil ofertas, vindas de 160 países do planeta, para embarcar numa viagem que é astronómica a vários títulos. Mas compreende-se: os que forem até aos céus irão afastar-se, nem que seja por escassos momentos, de um mundo em que Bezos, o milionário-astronauta, tem uma fortuna estimada em 196 biliões de dólares e em que, ao mesmo tempo, metade da humanidade sobrevive com menos de seis dólares por dia.

Jeff Bezos não é, porém, o primeiro milionário a comprar bilhete orbital. Nessa matéria, a primazia coube a Dennis Tito, um engenheiro e empresário que, em meados de 2001, pagou 20 milhões de dólares para navegar longamente pelas estrelas, durante oito dias, a bordo da nave russa Soyuz TM-32. Regressou de lá com a cabeça na Lua, a anunciar que em 2018 iria enviar uma nave até Marte, mas acabou por reconhecer, poucos meses depois, que nunca o conseguiria fazer sem a expertise e sem o financiamento da NASA, a qual, obviamente, nem lhe deu troco. Mas há um dado singular, bem expressivo da evolução que tivemos em tão poucos anos: em 2001, nas vésperas da partida de Tito, o administrador da NASA - ou seja, o máximo dirigente da agência - teceu duras críticas ao carácter comercial e turístico daquela excursão, dizendo que "o espaço não é coisa para egos". Agora, poucos anos volvidos, Jeff Bezos, não contente em dominar o mundo, apronta-se para lançar a mão às estrelas, sem que da NASA ou de qualquer outro lado se ouçam vozes a questionar tal empresa.

Percebe-se que haja muitos interessados em viajar pelos astros, gente capaz de pagar dois milhões - ou mais! - por cada minuto passado fora da órbita terrestre. Trata-se de fascínio antigo, que remonta a tempos longínquos, e ainda hoje há quem diga que a estrela do nascimento de Cristo, que alumiou os pastores da Judeia e conduziu os sábios magos, mais não foi do que o cometa Halley, que atravessou o sistema solar interno por volta do ano 11 a.C. É duvidoso, contudo, que o Halley tenha sido mesmo a "ditosa strella que os três Reys guiaste", como lhe chamou o nosso poeta quinhentista Diogo Bernardes, numa das muitas alusões que a literatura tem feito aos densos mistérios celestes. "Assim em cada lago a Lua toda / brilha, porque alta vive.", escreveu o nosso Pessoa.

Também o cinema cedeu à sedução astral e um livrinho recente de Emmanuelle André (L'attrait de la Lune, 2020) enumera as muitas películas que se ocuparam da Lua, ou que a tomaram por motivo. A lista é impressionante e dela constam fitas de que, na minha lunática ignorância, jamais tinha ouvido falar.

Tudo começa pelo óbvio, o icónico e seminal Le Voyage dans la Lune, de George Méliès, de 1902, e pela cena celebérrima da nave lançada por um canhão a despenhar-se no olho da Lua. O que menos se sabe é que do filme, um tremendo êxito na Europa, foram feitas centenas de cópias piratas na América e houve muita gente a enriquecer à conta do génio de Méliès (com destaque para Thomas Edison), excepto ele, que acabou os seus dias endividado, a vender doces e rebuçados numa barraca de rua, junto à Gare Montparnasse.

Diferente foi o destino de Fritz Lang, autor de outra lendária película lunar Frau im Mond/A Mulher na Lua, de 1929, obra precursora em diversos planos. Desde logo, porque intuiu algo que agora vemos com cristalina clareza, na viagem de Jeff Bezos e não só: a Lua pode ser palco da cupidez e da voracidade humanas e, não por acaso, no filme de Lang a expedição orbital é motivada pela ganância de descobrir o ouro existente nas suas crateras. Depois, e caso não saibam, a contagem decrescente antes da descolagem dos foguetões, usada pela primeira vez pela NASA no lançamento do satélite Explorer 1, em 1958, e que desde então se tornou um dos momentos mais emblemáticos das missões espaciais, foi inspirada directamente em
A Mulher na Lua, no qual Fritz Lang decidiu, num momento de génio, recorrer a um countdown de 6 até 1 no início da partida para o cosmos. Perguntaram-lhe se extraíra a ideia da sua experiência militar de soldado da Primeira Guerra, Lang respondeu que não, afirmando que fora algo que lhe ocorrera para aumentar o dramatismo da cena do lançamento do foguetão lunar. O filme contou, aliás, com a consultoria técnica de um pioneiro no lançamento de foguetes, Hermann Oberth, e tem um tal rigor que Hitler proibiu a sua exibição durante a Segunda Guerra, dadas as flagrantes semelhanças entre o foguetão da película e o programa nazi das V-2 assassinas.

Naturalmente, a ideia mais precursora de todas foi a de colocar uma mulher no espaço, Friede, interpretada por Gerda Maurus, mas há um outro ponto que merece ser realçado: como notou certeiramente o crítico Raymond Bellour, a dado passo da película as personagens, os actores, tornam-se em espectadores da própria missão que protagonizam. É algo de misterioso, extraordinário, mas que ocorre em todas as viagens espaciais: são feitos de tal forma assombrosos e nunca vistos que, em vários momentos, os astronautas se comportam como se os estivessem a observar de fora, como se não se encontrassem lá no alto, a caminho das estrelas, mas junto a nós, os demais mortais. O modo como Armstrong e Aldrin descreveram o que viam, e sobretudo a forma como falavam nas transmissões para a Terra, assemelhava-se mais ao de espectadores extasiados - e passivos - de um espectáculo que decorria perante os seus olhos do que de protagonistas e agentes dessa aventura.

A corrida ao espaço foi também, talvez mesmo primordialmente, uma corrida pela imagem, uma competição cinematográfica. Nesse aspecto, a América e a União Soviética da Guerra Fria portaram-se tal qual os turistas que se acotovelam em frente a um monumento ou a uma paisagem na ânsia de tirarem uma fotografia, a prova provada de que "estiveram lá". Às vezes, quase sempre, a obsessão documental é tanta que o momento presente, o da permanência num dado lugar, é todo gasto em nome do futuro, inteiramente consumido a guardar para a posteridade o registo fotográfico de um acontecimento que, verdadeiramente, não ocorreu enquanto experiência real, mas apenas enquanto memória. No espaço, os russos tomaram a dianteira em termos sonoros, com o "bip bip" da Sputnik, em Outubro de 1957, e, logo a seguir, com as imagens da cadela Laika e de Yuri Gagarine. Não admira, pois, que os americanos tivessem respondido com uma hipermediatização da missão Apollo, para a qual foi essencial outro elemento novo, a televisão. A etimologia, como sempre, ajuda: do grego, tele, equivale a longe, a distante, e o latino visione corresponde a visão; "televisão" é ver ao longe ("telescópio" é "observar ao longe") e, no caso da viagem lunar, era ver muito ao longe, onde a vista, a visione, nunca chegaria. E, como sucedeu com São Tomé, ver, nem que fosse ao longe, era fundamental para crer, para acreditar que dois astronautas americanos tinham mesmo pisado o solo lunar. Poderiam fazer-se fotografias, e fizeram-se (Buzz Aldrin, algo vilmente, não fotografou Armstrong), mas, sem uma experiência visual como aquela que a televisão proporcionava, o triunfo político da conquista da Lua perderia grande parte do seu sentido. Daí o empenho em registar em filme todos e cada um dos momentos da inesquecível epopeia ("os americanos acreditam que aquilo que não é mostrado no ecrã não aconteceu", escreveu Michel Onfray em A Decadência do Ocidente).

Agora, o mais espantoso: em 2006, a NASA reconheceu ter perdido todos os registos fílmicos da Apollo 11. E o mais paradoxal de tudo é que tal aconteceu, em larga medida, devido à obsessão de transmitir as imagens para Terra, o que fez que as gravações feitas no espaço tivessem de ser convertidas num formato adequado à televisão, de menor qualidade. Após o fim da missão, a conservação dos registos originais deixou de ser uma prioridade, tal qual acontece com os turistas que só vão a um sítio para tirar um retrato, esquecendo-o logo a seguir. Mais recentemente, a NASA embrulhou-se em explicações, falou de uns vídeos enviados para a Austrália, mas teve de reconhecer o essencial: nos anos 1980, dada a escassez de película, alguém apagou os registos ou, melhor dizendo, fez uma gravação em cima deles. Não contente com isso, Houston desfez-se de centenas ou milhares de cassetes sem ter o cuidado de verificar o respectivo conteúdo. Gary George, um estagiário da agência, comprou-as por uma pechincha e, anos mais tarde, quando a NASA se apercebeu do erro, tentou comprar-lhe as fitas de volta. Gary, esperto, recusou fazê-lo e três bobinas com a duração de 2h 24", intituladas "Apollo 11 Eva/July 1969 REEL" acabaram por ser vendidas pela Sotheby' de Nova Iorque, em Julho de 2019, pela bela quantia de 1,8 milhões de dólares - pagos pela NASA, claro (ainda que a agência nunca tenha confirmado a aquisição). E eram, note-se, gravações de baixa qualidade, já que o original do "salto gigantesco para a humanidade" se perdeu para todo o sempre.

Estranho desenlace o desta história: numa das maiores epopeias de todos os tempos, tão dependente de imagens para a sua própria existência e para a sua eficácia, enquanto exercício planetário de relações públicas, esfumaram-se os registos primordiais, feitos pelos astronautas da Apollo e por câmaras instaladas no módulo lunar. Ao todo, 700 caixas de bobinas. Talvez a culpa tenha sido de um "processo administrativo", como agora se diz, na hora de furtar os políticos às responsabilidades - às responsabilidades políticas - que lhes cabem pelas inépcias dos serviços que tutelam. Morrem imigrantes às mãos de inspectores de estrangeiros, denunciam-se manifestantes a uma potência hostil, pondo em risco as suas vidas e a sua segurança, e nada acontece, nada sucede, tudo se passa como se vivêssemos todos com a cabeça na Lua. No ano da morte de Jorge Coelho, um político que teve a coragem e a dignidade de assumir as suas responsabilidades, aquilo a que temos assistido por estes dias é um grotesco insulto à sua memória - e à memória de um outro PS.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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