No coração de Portugal…

Falávamos normalmente dos mais diversos temas, mas naquele dia deu-me conta de um projeto novo que o entusiasmava, a produção de queijo da serra, seguindo por métodos modernos uma tradição antiga, nas pisadas de seu avô. E pediu-me que recolhesse elementos sobre as origens antigas desse precioso alimento, que para muitos é o melhor queijo do mundo. Conversámos longamente e verifiquei que o Jorge sabia praticamente tudo o que era relevante. Como era seu hábito, já planeara a ação até ao ínfimo pormenor. Apenas desejava reforçar o valor do património cultural - permitindo aos futuros consumidores a consciência de que beneficiavam de uma experiência única. No fundo, disse-mo tantas vezes, com a argúcia e a inteligência conhecidas, e nunca encontrei melhor definição, a cultura reúne o que recebemos das raízes, da memória e da herança dos nossos antepassados, à capacidade de fazer da vida um fator de permanente aperfeiçoamento. E, não por acaso, a etimologia da palavra cultura, que usamos, tem que ver com o campo, no qual semeamos e colhemos. Para cultura do espírito, os gregos falavam de paideia e os latinos de humanitas - e o Jorge ao lembrar Mangualde dos seus antepassados, fazia-o sentindo o mais puro património, genético e imaterial, com que se constrói a cultura moderna.

Fui ver. E lembrei-me, naturalmente, de Miguel Torga: "Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia elétrica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha as raízes no seu largo e materno seio. Ela comanda, bafeja, castiga e redime." Beira serra, eis o coração de Portugal - e foi aí que o Jorge quis reerguer a tradição, criando ocupação, justiça e modo de vida para os dias de hoje. Os montes Hermínios, lugar da resistência lusitana, tiveram no queijo uma excelente fonte alimentar, pela abundância de bom leite das ovelhas, que a técnica romana tornou produto divinal. Aquilino lembraria os faunos que andavam nos bosques. E Gil Vicente deu ao queijo honras maiores entre os produtos da alta montanha trazidos da serra, na tragicomédia pastoril. E assim no Paço Real de Coimbra, perante a rainha D. Catarina, que dera à luz a infanta D. Maria (1527), os pastores ofereceram "quinhentos queyjos resentes / todos feytos aa candea, / bezerras, leite, ovelhas meirinhas...". Era o resultado de uma longa azáfama, em que os pastores percorriam dificultosas rotas na busca das melhores pastagens para as ovelhas das raças Bordaleira da Serra e, em menor número, Churra Mondegueira...
E mestre Gil ainda lembrava na boca de um pastor: "Que tal leite como o meu / Não no há em Portugal / Que tenho tanto e tal / E tão fino Deus m"o deu..."

O que os livros ensinavam sabia Jorge da sua experiência. Que é a história senão a vida que se faz no tempo? O avô, Raul Abrantes Coelho, calcorreava a serra a visitar pastores e feiras, comprava o melhor que encontrava e levava os queijos para Contenças. Alinhava-os em prateleiras de madeira Eram devidamente lavados e virados à procura da melhor textura. Jorge, com 5, 6 anos, com olhar de ver o mundo, fixava tudo o que se passava e agora regressava a esse tempo pensando para diante, pleno de entusiasmo, para que as gentes da região fossem lembradas, e para que Mangualde pudesse ter a queijeira que lhe faltava. Em Vale da Estrela vimos um grupo jovem em ação e testemunhámos a qualidade extraordinária da produção. Assim, o falar e o fazer dos pastores de mestre Gil continuam bem vivos. Obrigado, Jorge Coelho!

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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