Newton (mesmo sem a maçã na cabeça) faz falta à política internacional

Quem tiver 50 anos ou mais lembra-se das cartas escritas à mão, enviadas em envelopes com selos e dos telefones que estavam presos à parede e não iam a lado nenhum. As notícias demoravam e quando chegavam já não eram tão novas quanto isso. Hoje o mundo é muito mais pequeno e o que se passa nos antípodas chega até nós pouco tempo depois. Sabemos mais e temos os instrumentos para conhecer melhor o que se passa em qualquer lugar da anunciada "aldeia global". E a globalização não diminuiu apenas o tempo e as distâncias. Estabeleceu também dependências e impactos, como um conjunto de peças de dominó alinhadas: se derrubamos uma, as outras seguem-se até que nenhuma fique de pé.

A 3.ª lei de Newton - o famoso físico inglês a quem uma maçã que (não) lhe caiu na cabeça revelou os segredos da gravidade - estabelece que "toda a ação gera uma reação". E se é verdade na física também o é na política internacional e nas relações entres os Estados. O que fazemos ou deixamos de fazer terá consequências - boas ou más -, mesmo que essa não fosse a nossa intenção inicial, e antecipar as reações das nossas ações permitirá promover resultados virtuosos ou evitar tragédias.

Ora, como dizemos e bem, "mais vale prevenir do que remediar", mas para prevenir é necessário pensar em Newton e na sua 3.ª lei. Por exemplo, a pandemia mostrou que a Europa não tem capacidade industrial que permita dar respostas às suas necessidades, se as cadeias de produção que se estendem desde o Sudeste Asiático ou da América do Sul e Central forem quebradas e, portanto, foi tomada uma decisão de reindustrializar o continente. Mas como vamos gerir o impacto em países cujo crescimento económico e o desenvolvimento social está ligado ao fornecimento de bens industriais para os mercados mundiais? De forma semelhante, poucos são os que ainda duvidam do impacto das alterações climáticas e da necessidade de substituir os combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis. Mas como vamos gerir o impacto da transição energética nos países cuja economia depende do petróleo, como os países do Golfo ou alguns países africanos?

Quem achar que o problema não é seu não sabe do que fala. Um mundo em que o Sudeste Asiático, o golfo Pérsico, partes de África ou da América Latina estivessem economicamente e socialmente em convulsão profunda seria impossível de gerir e, mais cedo do que mais tarde, teríamos um problema para todos. A solução não será deixar tudo como está e abandonar a transição climática ou o processo de reindustrialização da Europa. A resposta está em antecipar as reações e preveni-las conjuntamente, através de processos de cooperação internacional, pois é do interesse de todos que o mundo funcione, inclusive dos países que mais beneficiarão com os novos empregos a indústria possam criar na Europa ou com o fim da dependência do petróleo.

Não tendo vocação ou meios para impor soluções a ninguém, Portugal poderá ter um lugar a desempenhar nestes processos de diplomacia preventiva, contribuindo para o diálogo necessário para que a 3.ª lei de Newton seja integrada nos processos de decisão internacional e que ações e reações sejam aceitáveis para todos. Não será fácil, mas é necessário e reforçaria o nosso papel no mundo.

Investigador associado do CIEP/Universidade Católica Portuguesa
bicruz.dn@gmail.com

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