Não ignore o cancro em tempo de pandemia

No Dia Mundial da Luta Contra o Cancro importa deixar um alerta, agora que entramos novamente em confinamento por causa da pandemia COVID-19: a prevenção da doença oncológica não pode esperar.

É imperioso que a população entenda que, apesar deste cenário de pandemia, não se deve inibir de procurar resposta aos seus problemas de saúde.

O início da doença oncológica é insidiosa e requer atenção, tanto por parte do doente como por parte do sistema de saúde, uma vez que se trata de uma epidemia silenciosa e constante que muitas vezes é assintomática nas primeiras fases da doença e requer a realização de testes e exames conforme as circunstâncias de cada doente. Embora não seja contagiosa, atinge de uma forma generalizada a população, eclodindo em quase todas as faixas etárias, embora mais frequente à medida que a idade vai avançando.

Desde que começou a pandemia em Portugal, temos assistido a nível nacional a uma redução dos diagnósticos oncológicos. De acordo com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, só em 2020, estima-se que terão ficado por diagnosticar mais de mil cancros da mama, do colo do útero e colorretal, devido à COVID-19. Sabemos também que, por receio, as pessoas têm vindo a adiar cuidados de saúde essenciais como exames de diagnóstico e tratamentos oncológicos, o que poderá trazer consequências graves para a saúde da população.

Os rastreios não devem ser interrompidos. Os tratamentos não podem ser suspensos. A vigilância após tratamento não deve ser adiada. As pessoas não devem ter receio de se deslocar às unidades de saúde que garantem as medidas de segurança necessárias.

Gostaria de evidenciar o cancro colorretal porque, apesar de ser um dos cancros mais mortíferos - é a segunda causa de morte mais frequente entre os tumores malignos - se detetado numa fase inicial é possível garantir uma elevada taxa de sucesso e pode até ser prevenido se os pólipos que lhe dão origem forem removidos antes de se transformarem.

Existem sinais que não devem ser ignorados e que merecem observação urgente! A presença de sintomas como perdas de sangue nas fezes, anemia de instalação lenta, alteração do padrão habitual dos hábitos intestinais, dores abdominais persistentes ou sensação de massa abdominal, entre outros, deve motivar a procura imediata do médico assistente.

As análises e endoscopias de rastreio, diagnóstico e vigilância podem e devem continuar a ser realizadas, sob pena de a doença ser detetada em fases cada vez mais adiantadas, com doença já inoperável ou já espalhada e incurável.

Se estes exames forem adiados ou descurados, a epidemia irá aumentar de número e gravidade até porque, no caso concreto do cancro colorretal, a colonoscopia de rastreio é simultaneamente diagnóstica e terapêutica, uma vez que, ao retirar os pólipos pré-malignos, ajuda a reduzir a incidência da própria doença curando os doentes que poderiam desenvolver uma doença maligna.

Os tratamentos cirúrgicos devem ser considerados muito prioritários e os ciclos de quimioterapia podem e devem continuar a ser realizados: não aumentam o risco para o doente e trazem benefício ajudando a salvar vidas. Há evidência acumulada e uma experiência já sólida de que os doentes oncológicos não têm mais complicações por causa da infeção COVID-19 do que os doentes em geral - e o facto de estarem a fazer quimioterapia com os cuidados atualmente aplicados não os torna mais suscetíveis para a doença nem têm mais complicações ou uma evolução desfavorável.

As consultas de vigilância são também muito importantes - quer seja sob a forma presencial ou remotamente por teleconsulta - e não devem ser adiadas já que podem ser realizadas em segurança e são importantes para detetar progressão da doença ou para o tratamento de sequelas dos tratamentos realizados, assim como para o despiste de outras complicações. Não hesite, consulte o seu médico.

Oncologista no Hospital CUF Porto

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