Não é preciso inventar a roda

Se há coisa que o mês de campanha interna no PSD demonstrou é que o espaço político da direita não está, obrigatoriamente, entregue ao Chega e à Iniciativa Liberal. Os dois candidatos à sucessão de Rui Rio - o vencedor mais do que o derrotado - e o modo como fizeram oposição ao governo do Partido Socialista provaram bem como os sociais-democratas, por enquanto, prosseguem a força protagonista na sua área política. Basta fazerem por isso. Luís Montenegro, em particular, que esteve sempre em desacordo com a estratégia de oposição passiva de Rio, mostrou não apenas como é possível não ser ultrapassado pelo populismo no escrutínio aos socialistas, como há muito a escrutinar na sua governação.

A sua vitória massiva nas diretas de ontem pôs termo, com estrondo, à era do rioísmo no PSD. E já era tempo. Quatro anos de insucesso eleitoral, falta de preparação e, no fim, uma ridícula tentativa de perpetuação no poder através de fantoches, pseudo-revisões-constitucionais, nomeações parlamentares e entrevistas inenarráveis. Um político como Rui Rio ter chegado a líder do PSD é uma mancha na história do partido que, compreensivelmente, Montenegro e Moreira da Silva fizeram por ignorar na sua disputa. Adiante. Felizmente, já passou. A aproximação ao PS falhou. A tal estratégia de oposição passiva idem. É agora hora de o PSD regressar à função constitucional a que os eleitores portugueses o remeteram: oposição. Não é preciso inventar a roda, senhoras e senhores. Façam-na.

A sua vitória massiva [de Montenegro] nas diretas de ontem pôs termo, com estrondo, à era do rioísmo no PSD. E já era tempo. (...) Um político como Rui Rio ter chegado a líder do PSD é uma mancha na história do partido.

Estas diretas, infelizmente, não geraram os melhores sinais após o pesaroso período do rioísmo. Montenegro concentrou-se em manter a superioridade do trabalho que levava adiantado. Moreira de Silva esforçou-se por fazer valer as ideias da sua moção - de facto, excelente -, apostando também numa estratégia de vitimização fiel à escola que Rio deixou feita.

O resultado, todavia, não engana.

Jorge Moreira da Silva alcançou números idênticos aos de Passos Coelho em 2008, quando concorreu pela primeira vez à liderança do PSD e foi derrotado por Manuela Ferreira Leite. O problema é que os 31% de Passos em 2008 foram tidos contra 37% de Manuela e 29% de Santana Lopes, isto é, contra dois adversários. Moreira da Silva teve ontem próximo do mesmo, mas contra uma única candidatura, que assim mais do que duplicou o seu resultado. Não correu bem. A possibilidade de uma segunda tentativa à liderança - como Passos, com sucesso, em 2010, e o próprio Montenegro, este ano - sai fragilizada. E é pena. É um grande quadro da política portuguesa. Não deve ser descartado por ninguém que presida ao PSD.

A dimensão da vitória de Luís Montenegro, por outro lado, oferece-lhe garantias de um futuro mais sólido do que seria, a princípio, previsível. 70% do partido é uma percentagem sem precedentes históricos no PSD. Se o voto útil barricou sucessivamente Rui Rio na liderança, o resultado esmagador de Montenegro assegurou-lhe uma resiliência a sondagens, críticos internos e percalços eleitorais que lhe permitirão chegar a legislativas. Saiba aproveitá-la.

Colunista

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