Não digas mal do cavalo

Pelo segundo ano consecutivo, entramos na Semana Santa em estado de emergência, a mais espinhosa Quaresma das nossas vidas. Há um ano foi o choque, agora a provação. A via-sacra de sofrimento e privações atinge sobretudo os mais pobres, mais expostos e vulneráveis ao peso de uma cruz que o contexto de pandemia transformou em crise económica.

Mal refeitos da canga da troika, que nos hipotecou a soberania, encolheu o poder de compra e fez disparar a dívida e o desemprego, encaramos cada renovação do estado de emergência como quem conta as estações - e já vamos na 14.ª - de um penoso calvário de destino incerto. Maldizemos a TAP e o Novo Banco, sorvedouros de riqueza coletiva; e desiludidos pelas promessas por cumprir, desacreditamos do sistema político e desconfiamos da justiça... Eis o nosso ânimo coletivo que desaba, como se tivéssemos cavado um buraco negro na nossa história, cobertos de pano roxo, esperando o dia em que, redentor, "o véu do templo se há de rasgar em dois".

E, no entanto, quem se lembra, ainda há pouco, dos anos de euforia em que celebrámos o novo Portugal, moderno, aberto e europeu, entre a Expo'98, o abraço a Timor e o Euro 2004; dos brilharetes desportivos e, para não ir tão longe, do deslumbrado fogacho do nosso mercado turístico?

Andamos, agora, no extremo oposto. As nossas manifestações de ânimo oscilam entre o excessivo entusiasmo e o pessimismo depressivo, como se esta bipolaridade coletiva fosse a sina identitária da nação portuguesa, uma das mais antigas da Europa.

A verdade é que o orgulho e a autoestima também dependem de nós. Mas temos de nos descobrir mais fortes e, juntos e mais solidários, reconhecermos que somos seres únicos e irrepetíveis. Por isso, volto tanto à mesma história, que digo e repito aos meus e a tantos outros amigos: há anos, um dos meus acionistas, porventura o mais generoso, contou-me uma anedota, no seu jeito ímpar para as contar. Só a interiorizei e levei verdadeiramente a sério quando me apercebi de que contava sempre a mesma, a todos os que acabava de contratar.

E era assim, abreviando: juntam-se dois amigos de longa data, carreiras e trajetos paralelos. Um, macambúzio e deprimido. O outro, bem-sucedido e luminoso.

- O meu segredo, pá, é o cavalo que tenho lá em casa. Impagável! Acorda-me os miúdos, veste-os, dá-lhes o pequeno-almoço e leva-os à escola. Cozinha, apoia nas tarefas domésticas, serve umas tapas quando tenho amigos e, em dias especiais, até toca uns acordes de piano...

- Oh, pá, vende-me o cavalo!

- Estás doido ou não tomaste os comprimidos?!

Discutem se vende ou não vende e, finalmente, o animal muda de casa. Dias depois, o novel proprietário da cavalgadura aparece-lhe à porta, braço ao peito, cabeça entrapada e quadrúpede pela trela, para o devolver.

- Enganaste-me! O cavalo é uma besta, alimária! Deu-me cabo da mobília, escoiceou-me a sogra, e olha o meu estado.

- Tu não digas mal do cavalo!

Discutem de novo, agora sobre as malfeitorias do bicho e o negócio frustrado.

- Tu não digas mal do cavalo!

- Ai digo, digo. E não digo mal
porquê?

- Porque, senão, não o vendes!...

Jornalista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG