Mundo multipolar e mudança internacional (I)

Como é hoje evidente, vivemos num mundo multipolar. Isso revela-se olhando para as projeções para as próximas décadas.

Do ponto de vista económico, o PIB global - catalisado por alguns vetores tradicionais do crescimento económico como a demografia e a produtividade, mas também pelo progresso tecnológico, pela inovação disruptiva e pela globalização do comércio e investimento internacional - mais do que duplicará de 2020 até 2050, ultrapassando o crescimento populacional global.

Porém, como corolário do crescimento das economias dos E7 (Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia) a uma taxa média anual de cerca de 3,5% - enquanto as nações desenvolvidas do G7 apenas crescerão 1,6% - em 2050, seis das sete maiores economias do mundo (PIB PPPs constante 2016 US$MM) serão países emergentes: 1.ª China (58,5); 2.ª Índia (44,1); 3.ª EUA (34,1); 4.ª Indonésia (10,5); 5.ª Brasil (7,5); 6.ª Rússia (7,1); 7.ª México (6,8); 8.ª Japão (6,7); 9.ª Alemanha (6,1); 10.ª Reino Unido (5,3); 11.ª Turquia (5,1); 12.ª França (4,7); 13.ª Arábia Saudita (4,7); 14.ª Nigéria (4,3); 15.ª Egito (4,3); 16.ª Paquistão (4,2); 17.ª Irão (3,9); 18.ª Coreia do Sul (3,5); 19.ª Filipinas (3,3); 20.ª Vietname (3,1) (fonte: PwC, 2017).

Como pode ver-se, 14 das 20 principais economias do mundo em 2050 serão países emergentes. A participação da UE 27 no PIB global deverá ser inferior a 10%. Porém, o PIB per capita nos atuais países desenvolvidos deverá continuar, em geral, mais elevado do que nos países em desenvolvimento, mas com uma diferença menor do que a atual.

O mundo está a deixar de ser dominado pelo clube da OCDE. O processo é gradual mas visível, e os países emergentes, sejam os BRICS, os E7 ou os MINT, representam uma parcela cada vez mais relevante da economia, do comércio externo e do investimento mundial, e reclamam representatividade correspondente.

Em face desta nova realidade económica internacional faz sentido manter a atual distribuição de participações sociais em instituições como o Banco Mundial, o FMI e outras organizações económicas internacionais? Parece inegável que estes países emergentes devem ter mais peso na tomada de decisões económicas globais; o que, por sua vez, mais facilmente os levará a alinhar as suas políticas com as regras dessas organizações.

Já houve algumas alterações nesse sentido, mas a resistência dos principais países ocidentais é enorme. Os americanos não querem perder o "direito" a indicar o presidente do Banco Mundial e os europeus o diretor-geral do FMI... E o Congresso dos EUA tem desde longa data uma visão obtusa sobre a multipolaridade e o papel dos EUA no concerto internacional; basta recordarmo-nos do triste exemplo da Carta de Havana, nunca aprovada pelo Congresso.

Num mundo em que as principais potências económicas serão países emergentes, é preciso repensar muitas coisas, a começar pela composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Portugal tem apoiado as pretensões do Brasil a um lugar permanente no Conselho de Segurança. E deve bater-se pelo reconhecimento da língua portuguesa como língua oficial da ONU. Mas deve sobretudo aproveitar a necessidade de esta evolução mundial exigir a arbitragem de países com soft power e estatuto neutro. O que requer menos alinhamento com o "eixo euro-atlântico" e maior abertura ao mundo emergente.


Consultor financeiro e business developer
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