Motivação para o serviço público

A confiança das pessoas nas entidades públicas tem demonstrado um declínio a partir da década de 60 do século XX, particularmente vincada por uma aparente apatia no acolhimento das políticas governamentais. Esta ideia genericamente impregnada de que existem dificuldades em captar recursos humanos qualificados para a AP por não ser competitiva face ao mercado poderá estar enviesada! Trazendo à ribalta o constructo da Public Service Motivation (PSM) na investigação científica, diversos estudos apontam que existe motivação intrínseca alicerçada num constructo como "a propensão de um indivíduo para responder a motivos fundamentalmente ou exclusivamente de instituições públicas" (Perry & Wise, 1990,
p. 368). A PSM tem sido estudada profundamente, nomeadamente em diferentes contextos culturais.

Num estudo exploratório em que o autor participou (1) para a validação do modelo para Portugal, foram obtidos resultados interessantes que se passa a expor.

O primeiro fator extraído corresponde à dimensão Autossacrifício associado a disposição em sacrificar interesses individuais para beneficiar outros;

O segundo fator extraído corresponde ao Dever Cívico associado à importância do bem comum e do senso de dever associada a compaixão, ou a estima pessoal com pessoas menos privilegiadas;

O terceiro fator Justiça Social como processos de escolha racional e de maximização da utilidade, com processos normativos e de orientação comportamental para o acatamento de normas;

Na aferição para a população portuguesa, há a destacar por um lado, que a dimensão Autossacrifício, por si só, explica 31,24% da variância. Por outro lado, emergiram dois últimos fatores que se destacam por terem uma natureza negativa e não positiva como os fatores descritos anteriormente. Não correspondem a qualquer uma das dimensões originalmente propostas pelos autores, sendo, pois, característicos da população portuguesa. Essas duas novas dimensões são inovadoras, assentando concretamente na manifestação individual de valores ao nível organizacional decorrente da visão do homem económico, o que gera justamente um grau de desconfiança na sociedade. Daí estas dimensões assumirem um carácter negativo sobre a PSM quando presentes. São eles o Egoísmo Social e o Cinismo Social.

O Egoísmo Social consiste numa focalização do sujeito em si próprio, nos seus interesses, objetivos, motivações em detrimento dos outros e, em geral, da sociedade, dos seus problemas, tensões e necessidades.

Já o Cinismo Social consiste na ausência de alinhamento entre o discurso e as práticas comportamentais (por exemplo, de gestão ou pessoais), isto é, a existência de uma incongruência comportamental, que origina um sentimento de descrédito em relação a uma classe social específica, impactando quer na forma cognitiva, quer afetiva, quer comportamental.

Face a uma necessidade crescente de estimular valores pessoais, de direcionar comportamentos e de motivar as pessoas na colaboração societal, a aplicação prática da motivação para o serviço público (PSM) pode fornecer contributos importantes para reverter a compreensão dominante do desempenho organizacional na Administração Pública desiderato este, que consta no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e essa necessidade de desenhar Políticas Públicas assertivas, passa necessariamente, em dar prioridade na qualidade da atração e retenção do talento nos serviços públicos.

(1) Fonseca, J., Nascimento, J., Dias, D. (2020). Estudo Preliminar de Adaptação do Modelo de Motivação para o Serviço Público de Perry (1996) para o Contexto Português. Revista do Centro de Administração e Políticas Públicas, ISCSP, Universidade de Lisboa, Portugal.

Docente universitário

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