Morreu uma pessoa na A6. Diz a decência que devia ser quanto baste*

*O acidente do carro do governo em que seguia Cabrita é na realidade o perfeito retrato do maior problema do país relativamente às relações entre governantes e governados. Quem está no poder não sente a humildade que o cargo lhe devia conferir.

"A government of the people, by the people, for the people". As palavras de Abraham Lincoln no discurso de Gettysburg definem a base de qualquer democracia. São 11 simples palavras, mas o seu poder é quase infinito. Um governo do povo, pelo povo, para o povo. Não é preciso mais nada.

É tudo o que o ministro Cabrita e o seu chefe Costa não estão a ser para Nuno Santos. Que era um elemento desse povo. E, nesse sentido, falham a todo o povo.

Independentemente dos detalhes do acidente -- se o carro ia ou não em excesso de velocidade, se a obra na A6 estava ou não sinalizada, se de facto o trabalhador tomou as precauções de pater familiae durante o seu trabalho... --, o facto é que uma pessoa morreu naquela tarde na A6. Morta por um veículo do governo.

Não devia ser preciso mais nada para que de imediato, pelo menos, o mesmo governo disponibilizasse toda a ajuda necessária à família. Pagasse funeral, despesas e arranjasse uma indemnização choruda que compensasse a perda de uma vida, visto que não é possível ressuscitá-la.

Repito. Morreu uma pessoa que -- e isto é pacífico, ninguém contesta -- estava simplesmente a trabalhar. Atropelada por um carro do governo. Que seguia ao serviço do governo. Pago por todos nós.

E acabemos, de uma vez por todas, com esta conversa do Estado. É o governo. O Estado somos todos nós que pagamos impostos, o governo são aqueles que elegemos para os gastarem supostamente da melhor forma. Não era o Estado que ia naquele carro ou que é proprietário daquele automóvel, era um membro do governo dentro de uma viatura ao serviço do Executivo.

Mandava a simples decência que as pessoas eleitas por todos nós resolvessem a situação o mais depressa possível, sem desculpas, sem comunicados a dizer que se calhar a culpa é do morto, porque se atravessou, e a obra não estava sinalizada...

Após semanas em silêncio Eduardo Cabrita veio ontem dizer que "aguarda pelo inquérito". E apresenta condolências. E quase se apresenta como vítima, ao dizer que não deseja a ninguém passar por aquilo que ele passou. Maravilhoso!

E continua a apresentar-se como um grande ministro porque sob a sua égide a criminalidade desceu muito. Pois. Aparentemente descobrimos o segredo para acabar com o crime: a covid-19. Todos em casa confinados e não há assaltos. Incrível!

Quanto ao aguardar pelo fim do inquérito... Ah, porque este ainda poderá concluir que a culpa poderá ser da vítima mortal?

Um governo pelo povo, para o povo.... este não é com certeza. Mas como dizem que são de esquerda, ninguém grita que são indecentes, arrogantes e antidemocráticos. Ufa!

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