Mitos

São vários os sentidos em que a referência da palavra mito é consagrada, e na área da antropologia é corrente considerá-la natural, usada para identificar uma situação que a comunidade avalia. É importante a intervenção de responsáveis culturais, mas sobretudo antropologistas como Strauss ou Soekarno. Sendo evidente a importância deste pluralismo de análises e tendências, na política foi historicamente palavra corrente do ponto de vista das tensões sociais, que manifestavam com importância a vivência da tensão racial, que foi um ponto central ao ser aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem, destacando-se, entre os interessados, a expressão internacional dos povos de cor, tema dominante da Conferência de Bandung em abril de 1955, que Soekarno chamou "Conferência dos povos mudos do mundo".

Um dos cuidados foi, perante os numerosos exemplos de coexistência de etnias diferenciadas, organizar a lista dos mitos raciais politicamente relevantes, adotando as diferenciações. Estes factos discriminatórios correspondem a observações identificadoras dos sociólogos, mas sendo que foi a UNESCO que também o adotou tendo em vista a defesa política de igualdade de direitos de todas as espécies.

Talvez dos mais antigos seja o "mito judaico", hoje dotados de um Estado próprio. Na Europa, a partir do século XV, o preconceito contra os judeus teve exemplo na sua expulsão, designadamente de França, Inglaterra, Escócia, Dinamarca, Grécia, Noruega, Castela e Portugal, que teve a criação dos cristãos-novos, embora a intervenção da Inquisição seja de importância. Todavia, como salientou Richmond, a igual mobilidade social é mais difícil quando o sinal visível da diminuição de estatuto social são características raciais diferentes, sendo longamente usada a cor da pele.

Para os judeus a intervenção mais desumana e cruel viria a ser a do nazismo. A atenção à cor da pele deu origem ao mito do negro, uma situação originada sobretudo pelos interesses económicos, que multiplicaram o exercício da escravatura, não tendo sido moderada a extensão, lembrando por exemplo que não foi fácil aceitar a inquietação de frei Bartolomeu de Las Casas sobre a igualdade da razão para suprimir a escravatura dos negros e índios.

Mas a história dos EUA ajuda a tentar compreender como os chamados Group Identification não impediu a urgência de um regime democrático, mas que não inspirou facilmente a não discriminação, facto que frequentemente violou a paz civil. Não foi muito antiga a violenta ação do Ku Klux Klan.

Por fim, o mito dos mestiços, nas sociedades onde existiu uma situação colonial ou é viva a recordação dela. A situação é por vezes moderada por fórmulas como a voz do sangue, sangue novo, sangue azul. É uma área em que a extinção da identificação mestiça resulta do chamado passing, criação de mestiços que de cor branca entraram para a sociedade branca.

Mas o mito da raça ariana ou nórdica, frequentemente abrangente do nacionalismo europeu, que é referido como frequente apoio do racismo que inspirou Houston Chamberlain (1899) a formular o mito da "nórdico louro dolicocéfalo": uma cruzada que parece ter ajudado a radicar a tese criminosa do nazismo. Uma atenção, que provoca hoje inquietação, é a multiplicação dos mitos inspirados por etnias diferentes com que se tem notícia da situação crítica de minorias que são abrangidas por uma estrutura diferente dos Estados em que habitam, sobretudo os que vencem a transformação da hierarquia política subestimada pelas decisões do projeto da ONU e da UNESCO. A proteção dos direitos iguais para todos não pode legitimamente ser violada pela nova estrutura. Os severos avisos da ONU advertem os riscos que exigem ser evitados. São estes avisos que lembram descuidadas decisões do passado, e que evidenciam provável renovação de decisões para dominar carências da covid-19; migrações que não conseguem encontrar acolhimento, submissão de acolhidos a trabalhos criminosos, e o governante que se justificou afirmando que "todo o animal se junta com outro da mesma espécie".

A pretendida legalidade, que exigiu retroatividade das leis penais em Nuremberga, um tribunal inspirado pela ofensa à justiça natural de que "a mistura do sangue com o dos outros povos inferiores resulta na ruína da raça superior". O aviso da ONU não pode ser ignorado, porque não foi corrigida a decisão do Tribunal Internacional de não assumir a investigação de governos nos crimes contra a humanidade porque os Estados não colaboram. A força dos mitos, de que é exemplo a história da escravatura dos negros nos EUA, tem demonstrado ali que suscita violência social, foi causa lícita.

Não são de memória antiga casos de legalidade democrática estadual, com a sociedade civil a sustentar a desobediência, por valores de grupos civis.

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