Mistérios de Caminha

O episódio conta-se em poucas palavras e tem que ver com o perigo que sempre se corre quando nos aventuramos no misterioso mundo das sombras.

Foi há uns anos e o episódio vem à memória neste ano em que continuamos a celebrar o centenário de Ruben Andresen Leitão. Era um sábado, e sob a batuta do entusiástico Nicolau, filho do autor de
O Mundo à Minha Procura, peregrinámos no Alto Minho, em busca das pegadas do extraordinário homem de cultura que foi Ruben A. Percorremos animosamente, por montes e vales, os lugares sagrados: serra d'Arga, Caminha, Seixas, Vila Praia de Âncora, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Camarido. A visita ao "Sargaço", em Montedor, Carreço, a oito quilómetros de Viana, foi especial. Era um lugar favorito de Ruben, encomendado a seu primo João Andresen, arquiteto, autor do "Mar Novo" que o "regime" não quis construir em Sagres. Em antigas fotografias, aí vemos com Ruben, Ruy Cinatti, Ruy Leitão e Menez, Isabel da Nóbrega, João Gaspar Simões, e tantos amigos.

No fim do mundo? Não, era o verdadeiro princípio do mundo, plantado entre pinheiros, junto ao farol de Montedor, em frente de um mar enorme. "Pela manhã, acordo cheio de luz, fico suspenso, espilro sem névoa, promovo o dia. Manhãs puras, transparentes como só aqui no Alto Minho" (Páginas, VI)... Afinal, para Ruben, o único modo de defender a cultura e a paisagem seria amando-as. E eis o episódio: ao fim do dia, chegámos à porta da Casa de Esteiró, em Caminha, mas deparámo-nos com um estranho impedimento. Não havia eletricidade. E para espanto dos nossos anfitriões, Maria do Patrocínio, de querida memória, e o embaixador José Manuel Villas-Boas, os portões elétricos não se moviam, apesar de todas as diligências aconselhadas pelos detalhados livros de instruções! Nada se movia! Cá fora, assistíamos um pouco atónitos, Teresa Gouveia, Maria João Avillez, Liberto Cruz, o próprio Nicolau e todos. Qual cavaleiro da Barbela, o embaixador começou a escalada de um dos muros... E nós, conhecedores do romance ali nativo, suspeitámos de que houvesse coisa de outro mundo, até que, num passe de mágica, todas as luzes se acenderam e todos os portões de abriram por encanto. A Maria João não teve dúvidas. Nesse momento, numa boca de cena, Ruben e Alexandre O'Neill riam-se por certo, perante tão bem preparada encenação de quem nos recebia principescamente.

De facto, íamos invocar as origens do genial romance dedicado a Maria do Patrocínio e José Manuel -"fidalgos de vários costados, Senhores da Foz do Neiva e da Honra de Sapardos, Raia Seca e Menterestido, com feudo de leiras de semeadura na veiga da Torre da Barbela". Tudo nasceu em Esteiró, na voz dos trovadores e nas notícias de torto, numa história contada a Ruben em conversa com José Manuel na galeria da casa. Tinha sido ouvida à avó Emília, grande narradora de factos minhotos. E rezava que duas senhoras solteiras, de uma velha família com solar no Alto Minho, "resolveram soçobrar no pecado da carne para não entrarem purinhas no céu, causando ofensa às almas que passaram pelo Purgatório". Ruben não duvidou: "É uma história admirável. Vai-me servir de guia e pórtico à Torre da Barbela." E o imaginoso bardo ali mesmo escreveu de um só fôlego a dedicatória onde os senhores da acolhedora casa aparecem com nomes de meia fantasia, proprietários de terras semi-imaginárias, à mistura com as tais duas castas senhoras que por caridade cristã decidiram pecar...Os ingredientes estavam todos, o talento de Ruben encarregou-se do resto, e temos um grande romance - uma novela profundamente minhota, alegre e fantasmagórica.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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