Mistério explicado

Em artigo anterior, manifestei a minha estranheza pelo facto de forças e figuras democráticas portuguesas, algumas das quais contribuíram para o 25 de Abril, que pôs fim à colonização dos países africanos, terem alinhado, por ação ou omissão, na glorificação de um reconhecido torcionário promovida pelos setores saudosistas do colonialismo, do racismo e do fascismo.

Levantei, para o efeito, duas hipóteses: a dificuldade de Portugal e dos portugueses de lidarem com o seu passado colonial e o seu racismo e a falácia das falsas equivalências, usada pela extrema-direita em todo o mundo para comparar o incomparável e justificar o injustificável.

Três artigos recentes de um historiador e de dois jornalistas portugueses confirmaram pelo menos a primeira dessas duas hipóteses, ao mesmo tempo que mostraram que uma nova consciência nacional portuguesa relativamente a esses assuntos está, atual e felizmente, a crescer. É justo lembrá-los aqui.

O primeiro saiu no Dinheiro Vivo, do mesmo grupo a que pertence o DN. Refiro-me ao artigo de Jorge Fonseca de Almeida, publicado no dia 25 de fevereiro sob o título "Portugal abstém-se de lutar contra o racismo". Segundo o mesmo, Portugal foi um dos 44 países que se abstiveram na votação da resolução que aprovou um conjunto de medidas para a luta contra o racismo, como, só para dar um exemplo, a ratificação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial.

"Nada de radical, apenas propostas razoáveis e de bom senso", comentou o autor. É no mínimo chocante, portanto, verificar que o governo de um partido de centro-esquerda, como o PS, se tenha furtado a aprovar uma resolução internacional antirracista, que até o Brasil de Bolsonaro apoiou. Foi isso o que aconteceu.

Jorge Fonseca de Almeida observou ainda que Portugal foi o único país da CPLP que se absteve na votação em causa, o que diz tudo sobre o que pensam as autoridades portuguesas sobre esse instrumento de cooperação. Na minha opinião, os demais países membros da organização deveriam posicionar-se claramente sobre isso.

O segundo artigo - "O colonialismo matou muito mais que o Holocausto" -, de autoria do investigador e professor da reputadíssima Universidade de Howard Rui Diogo, de nacionalidade portuguesa, saiu no Expresso no dia 23 de fevereiro. Trata-se, na minha opinião, de um artigo definitivo sobre o assunto, cuja leitura tomo a liberdade de sugerir vivamente a toda a gente.

Alguns insistem que a censura ética e moral dos genocídios deve ser mais grave do que a censura à escravatura. Obviamente, discordo, tal como o professor Rui Diogo. A escravatura teve consequências comprovadas no crescimento demográfico das populações escravizadas, pelo que deve ser comparada com o genocídio. E o que dizer do extermínio dos índios americanos, de norte a sul, se não que se tratou de um amplo e massivo genocídio?

O terceiro artigo que me parece justo destacar é assinado por Vítor Belanciano e foi publicado no dia 27 de fevereiro no jornal Público, com o título "A irreversível descolonização de mentalidades". Em síntese, o autor afirma que a necessária descolonização de mentalidades por parte da sociedade portuguesa, depois da já ocorrida descolonização política, está em marcha há anos. "É um processo, como todas as mudanças, com fases de avanços e recuos", diz.

Belanciano é otimista. Para ele, a descolonização de mentalidades é inevitável, pois existe hoje em Portugal "uma nova geração que está disponível para lidar com os traumas coloniais, a história violenta do colonialismo, o racismo e a sua articulação com outras sujeições".

Temos de esperar que essa geração chegue ao poder.


Jornalista e escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho

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