Mauritânia: a sentença esperada

Há mais de um ano a moer no tribunal, a primeira sentença saiu finalmente e coloca o ex-presidente (PR) mauritaniano em prisão domiciliária para já, por um período de dois meses e renováveis por quatro vezes, enquanto o processo decorre com tudo e todos os colaterais a Mohammed Ould Abdelaziz.

Tendo optado sempre pelo silêncio, raramente falou em tribunal, não se fosse comprometer ainda mais perante as evidências de fraude e favorecimento dos seus mais próximos, onde o lugar de destaque é ocupado pelo seu genro e seus 56 camiões com zero quilómetros parados numa garagem que não é estranha a nenhum dos dois.

Este processo arrasta-se há demasiado tempo e, enquanto não vir um fim definitivo à vista, continuará a interferir na presidência Ghazouani, que precisa definitivamente de sair da sombra do seu mentor, o anterior PR, e dar credibilidade a um país crucial no Sahel na luta contra todos os tráficos que alimentam os jihadismos e que também continua sob uma suspeita constante de ainda praticar a "escravatura a céu aberto" em pleno século XXI. Esta credibilização nacional é também crucial para o debate que se adensará neste ano em torno da "questão sarauí", já que para breve será nomeado um novo representante especial das Nações Unidas para o Sara, o qual poderá optar por envolver países com geografias próximas ao conflito, sendo a Mauritânia mais do que um actor secundário, já que o actual PR Ghazouani poderá ele também, uma vez mais como forma de afirmação pessoal, alterar o azimute traçado pelo seu antecessor e colocar o país numa espécie de concurso internacional entre Marrocos e Argélia, de quem na realidade depende para a sua sobrevivência económica, manutenção de soberania e, optar por aquele que lhe der mais. Neste sentido, a discreta Mauritânia tem argumentos e o seu PR a necessidade de tornar o país num polo de importância regional até aqui ignorado por todos.

O ex-PR Mohamed Abdelaziz não viu, na realidade, nada de novo nesta sentença, já que teve a sua residência, o seu agora cárcere, sob vigilância a maior parte deste ano, mas o fim deste processo também o protege das habituais audiências que lhe colocavam questões incómodas, às quais o seu silêncio deixava no ar, perante a república islâmica, o anátema da culpa e da responsabilidade pessoal perante os factos. Na Mauritânia, como em Portugal com as comissões parlamentares e os "Sócrates desta vida", este também foi um momento constrangedor, no qual o zé-povinho se sentiu usado, abusado e por fim gozado face a um dos "donos daquilo tudo"!

A assinalar também ontem o fim do Ramadão, que marcará agora certamente um crescendo no conflito israelo-palestiniano, já se alvitrando uma terceira intifada, após um mês de escaramuças constantes na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, os palestinianos terão mais tempo para cair de novo na armadilha da agenda política israelita.

Votos de Eid Moubarak, Festa Abençoada, a todos/as!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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