Mário Mesquita e a liberdade sempre

À medida que os passos iam ficando para trás, contou-me o que cada loja pela qual passávamos tinha sido e o que vendia, onde viviam alguns dos seus amigos quando ali também ele tinha vivido com os seus pais. A conversa prolongou-se precisamente ao passarmos pela casa onde viveu, à frente da qual ficava o hotel onde há anos se instalava quando ia a S. Miguel e onde também ficámos nessa viagem. Falou-me dos centros de conspirações oposicionistas. Caminhávamos nas ruas de Ponta Delgada e as histórias multiplicavam-se como os passos que dávamos naquela noite amena de setembro do ano passado. Partindo ou não daí, falou-me de literatura, de história, de filosofia, de política... e de jornalismo, claro.

Eram sempre assim as conversas com Mário Mesquita. Tinha uma cultura invulgar, uma inteligência superior, um humor distinto e estava permanentemente atualizado. Tinha lido sempre muito e continuava a ler tudo. E tinha verdadeiramente prazer em falar sobre tudo. Eu, que nesses momentos só queria ouvi-lo, fiquei sempre espantado porque nunca deixava de pedir a minha opinião. E aí vinha o debate, a troca de argumentos que o deliciava. Generoso, atento ao pensamento do outro, rapidamente tirava do bolso uma série de autores, que logo relacionava com os temas em discussão e aconselhava a leitura.

Disse-me uma vez que se pedisse a alguém para ler um texto e não recebesse nenhuma crítica, o texto não tinha sido seriamente lido. Claro que a primeira vez que me pediu para ler um texto que tinha acabado de escrever eu tremi. Mas, uma vez mais, a sua generosidade: ouviu atentamente, conversou comigo sobre o texto e procurou integrar as observações. Exigente, crítico, profundo, rigoroso, não deixou nunca, porém, de estar aberto a outros olhares e ângulos de análise. Procurava-os, de resto. Só não tinha paciência para discursos banais. Desses fugia.

Nesse setembro do ano que passou, estávamos em Ponta Delgada para apresentar, no Teatro Micaelense, o livro em sua homenagem, que tive o privilégio de organizar com Tito Cardoso e Cunha, Cláudia Henriques e Carlos Rilley, ao qual se associaram tantos colegas de universidades de todo o país - A Liberdade por Princípio (Tinta-da-China, 2021). Depois de Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, era ponto assente que o livro tinha de ser lançado em S. Miguel. Para Mário Mesquita, a sua terra e o mar que a envolve, constituíam um apelo constante. Ele podia dizer, como Vitorino Nemésio, "Quando penso no mar, o mar regressa/ A certa forma que só teve em mim -/ Que onde ele acaba, o coração começa".

Esses foram dois momentos de grande alegria, porque todos estávamos a prestar uma justa homenagem a uma figura ímpar da cultura e da academia portuguesas, uma referência de integridade, um cidadão empenhado, um defensor da ética e do rigor jornalístico, da liberdade. Esta é a homenagem que lhe devemos, lembro-me de lhe ter dito. Sorriu, com aquele sorriso que também era só dele.

Mário Mesquita que chegou a Lisboa para estudar direito, mas com o firme propósito de praticar jornalismo, não deixa de prosseguir - e intensificar - a atividade política que iniciara nos Açores com António Borges Coutinho, Ernesto Melo Antunes, José Medeiros Ferreira, Jaime Gama ou Eduardo Paz Ferreira. Um percurso tão bem conhecido como oposicionista à ditadura, integrando a Ação Socialista Portuguesa, participando nas campanhas eleitorais da oposição, como fundador do Partido Socialista, tendo estado presente no congresso em Bad Münstereifel, em abril de 1973. Deputado Constituinte aos 25 anos, a Mário Mesquita se fica a dever, em grande medida, o articulado respeitante à Comunicação Social da Constituição de 1976, em defesa da liberdade de imprensa e do pluralismo nos media. Na imprensa, depois do República (1971-1975) e Jornal Novo (1975), é diretor-adjunto (1975-1978) e, com apenas 28 anos, passa a diretor (1978-1986) do Diário de Notícias e, mais tarde, do Diário de Lisboa (1989-1990).

Ao longo do seu percurso, que cruza inúmeras experiências (da FLAD à ERC, passando pelo Conselho de Imprensa e tantos outros órgãos), manteve uma coerência inabalável nos seus princípios, mantendo sempre igualmente uma enorme coragem. Combativo por natureza, viveu intensamente o período revolucionário, erguendo a voz em defesa da liberdade, e foi construtor do Portugal democrático. Depois, optou pelo jornalismo, pelo ensino e pela investigação. Lecionou em várias instituições de ensino superior (Universidade de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa, Universidade Lusófona, Escola Superior de Comunicação Social, etc.), mas não só: criou cursos de jornalismo, pensou e definiu planos de estudo, marcando profundamente sucessivas gerações de jornalistas, assim como de investigadores e professores que hoje se encontram em lugares de destaque em diversas universidades.

Mário Mesquita foi, sem dúvida, quem melhor pensou e escreveu sobre jornalismo em Portugal. O pioneirismo e a profundidade da sua vasta obra colocam-no no patamar cimeiro dos estudos sobre o jornalismo e o seu contributo para a afirmação desta área como campo científico em Portugal foi absolutamente determinante. O seu O Quarto Equívoco: O Poder dos Media na Sociedade Contemporânea (MinervaCoimbra, 2003), quase vinte anos passados da sua publicação, continua a ser uma obra incontornável e de grande atualidade.

Cidadão empenhado que sempre foi, na linha que atravessa a sua vida, a palavra liberdade é, porventura, a que surge mais nítida, porque por ela se bateu sempre. Nos últimos anos, mesmo contra a corrente, mesmo votando vencido, ela esteve sempre lá. Era mote das suas posições, do seu pensamento, do que escreveu. Um dia, quando se fizer essa história, isso dela constará.

Há poucos dias, quando conversámos por telefone antes de a cirurgia o levar cedo demais, e dela também falámos, falou-me da ida a Madrid, em abril de 1972, onde se encontrou com Mário Soares, que, exilado em Paris, foi a Espanha levar exemplares do recém-editado Le Portugal Baillonné. Estavam também Maria Barroso, Abranches Ferrão, Gustavo Soromenho, Isabel Soares, todos para trazerem livros para Portugal. Sabendo que me encontro a escrever sobre o tema, contou-me histórias da viagem, do livro e de como aproveitou a viagem para fazer uma entrevista a Soares a ser publicada no República. E, como tantas outras vezes, deu-me outras pistas e hipóteses para este estudo.

Lá estava, na última conversa que sem sabermos estávamos a ter: o político, o jornalista e o professor. E o aluno, que nunca deixou de o ser.

Pedro Marques Gomes, professor na Escola Superior de Comunicação Social e Universidade Lusófona

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