Mandela

O que está a acontecer na África do Sul tem entre a violação de valores, que foram ensinados, como parte do património do Estado definido por Mandela, e terminou com a histórica crueldade do racismo, o regresso frequente de críticas de setores de grande importância internacional. Não será fácil para os que seguiram o sofrimento do povo, que ele partilhou em anos de perda da liberdade, e contacto possível com os factos da informação do país e do mundo, que lhe não eram consentidos, e que morreu, liberto e eleito presidente do Estado, convicto de ter conseguido que todos os naturais se considerassem cidadãos iguais. A causa próxima foi a prisão do ex-presidente Jacob Zuma, com o efeito que a imprensa descreveu com estas palavras: "Pudemos ver que o Estado, na maioria dos países, é uma concha vazia." A imprensa converge em afirmar que a vaga de pilhagens sofridas pela África do Sul, em meados de julho, fazem imaginar que o país está em anos sem retorno.

Voltei a recordar a imagem que partilhavam, depois da Segunda Guerra Mundial, sobre o Estado racista que estava em vigor. Por então os Estados independentes que afastavam a submissão ocidental anterior, e esperavam o anticolonialismo efetivo da ONU, partilhavam a opinião de Learie Constantine em relação ao problema da "tensão social", convicto de que "sendo certo que Cristo, Buda, Confúcio, Lao-Tse e Maomé não eram de raça branca, e que a raça branca não deu origem a qualquer religião, era certo que estes povos de cor, íntimos dos deuses, foram reduzidos à pior das condições pela raça branca, atacando sobretudo a situação dos seus irmãos negros, na África do Sul (Learie Constantine, Colour Bar, 1954). Era o que qualquer visitante da África do Sul, por esse tempo, reconhecia a nota de Paton (Cry, the Beloved Country): "Suponhamos que é um branco e que chega de Londres ao aeroporto (agora chamado Jan Smuts), fora de Joanesburgo. Verá que no aeroporto todos os funcionários são brancos, mas verá os negros trabalhando como porteiros ou operários."

Quando, em consequência da evolução imposta pelo avanço da "paz coberta de lágrimas", Mandela foi libertado, aprendeu rapidamente o novo anunciado mundo de que ficara afastado tão longos anos, e conseguiu a adesão do conceito geral ao seu pensamento de um país com uma proclamação nacional de "somos todos sul-africanos"; o povo confiante aderiu ao sonho de futuro, e, como chefe de Estado, conseguiu uma proteção internacional, de pregador, jurista, estadista, com uma visão do novo mundo internacional, onde foi recebido em inúmeros Estados com respeito e partilhas. Muito conhecedor da vizinhança portuguesa da África do Sul, tinha interesse por Moçambique que teve antecedentes, finalmente eliminados, sendo o injusto quadro de trabalho em que o imigrante participava, e com interesse acompanhou a evolução de Portugal, que, com admiração, levou-o a ser eleito académico da Academia das Ciências de Lisboa, quando viajar já lhe era difícil. Foi a sua esposa, que veio receber o diploma, mas não lhe faltaram títulos valiosos em todo o mundo internacional.

O que se está a passar na África do Sul fere severamente a estrutura do Estado desordenada pela anarquia interna, e a herança institucional de Mandela é secundarizada e certamente esquecida pelo uso e domínio dos "discursos da cólera social", destruições, e em setores geográficos do território nacional aparecem grupos de líderes armados assumindo o controlo de territórios. É possível, e desejável, que o tempo da desordem seja controlado, porque sem a voz de Mandela não será fácil que uma voz tenha igual capacidade de reformar a antiga ordem, e reconstruir o novo futuro, porque a geração desse futuro tem direito a que a herança possa ser recebida sem benefício de inventário.

Infelizmente são inquietantes outros conflitos em países africanos, com intervenções violentas a exigirem intervenção que não é fácil conseguir rapidamente. A África do Sul não tem interesse, nem justificação fácil, se não conseguir escutar a herança de Mandela. Não são numerosos os novos países africanos libertados com um conjunto de valores humanitários, e não oferece o poder extrativo com os governados. Mandela não foi apenas um pregador da África do Sul, foi u pensador de pregação mundial.

Por vezes fala-se da sua santidade porque foi exemplo de perdoar todas as injustiças do seu passado doloroso. Não são numerosos os estadistas que, assegurando a nova definição da ONU, tenham também merecido esta devoção mundial, com respeito por todos os seres humanos. É o interesse mundial que o valoriza.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG