Mali: um golpe dentro do Golpe!

Estamos em Junho de 2021, mas o Mali, no passado dia 24 de maio, voltou a Agosto de 2020. Os militares desse Agosto derrubaram agora os cooptados do penúltimo golpe que destronou o presidente (PR) Ibrahim Boubacar Keita (IBK). Porquê?

Porque nada mudou, durante os últimos nove meses. A falta de diálogo entre presidência e primatura parece ser a normalidade, apesar de dez dias antes deste golpe o primeiro-ministro (PM) em funções, Moctar Ouane, ter apresentado a demissão, ter sido reconduzido no cargo pelo PR Bah Ndaw e apresentado novo executivo, num contexto de esquizofrenia, já que o Movimento 5 de Junho - Agrupamento das Forças Patrióticas, maior força civil de pressão que levou à queda do PR IBK em Agosto, nunca concordou com o Conselho Nacional de Transição, que comanda os 18 meses de transição, que ainda estão em vigor, já que o vice-PR que agora se assumiu como PR, o coronel Assimi Goita, garantiu que as eleições programadas para fevereiro próximo continuam na agenda.

Goita continua a insistir que não está agarrado ao poder e que em breve se entrará dentro da constitucionalidade com eleições e um governo civil, mas parece que a falta de diálogo entre PR, PM e governo se deve ao facto de, até 24 de Maio, nenhuma iniciativa ter sido bem vista/aceite caso não passasse pelo gabinete do então vice-PR. Este desinteressado do poder só avisou os seus camaradas do golpe anterior, que estava em curso nova acção, ao mesmo tempo que os restantes malianos foram avisados, pela comunicação social. Também foi claro ao justificar esta decisão, já que o novo governo de 14 de Maio fora cozinhado entre PR e PM sem passar pelo seu crivo.

Goita embrulha-se ainda mais na inconstitucionalidade ao passar de vice-PR para PR, uma autonomeação que a "carta da transição" não lhe permite, sendo que o cargo de vice-PR não existia antes de Agosto de 2020. Foi criado para que um membro da junta militar pudesse integrar o governo transitório, dando-lhe a perspectiva de controlo do processo.

Todo este complexo pode ainda ser simplificado da seguinte forma.
O novo governo, este último que não passou pelo crivo do ex-vice-PR Goita, descartou do seu seio dois elementos do extinto Comité Nacional para a Salvação do Povo. Os militares interpretaram isto como um afastamento definitivo do poder e com consequências legais para os próprios, já que a Constituição maliana, não suspensa, criminaliza golpes de Estado. Portanto, este pode muito bem ser considerado um golpe dentro do Golpe, na procura pela imunidade da turma da Academia Militar de Kati, que a 18 de Agosto último se antecipou à vontade e à pressão popular para se substituir o ex-PR IBK por um religioso e concretizou um clássico golpe de Estado militar, não permitindo espaço a ideias novas!

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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