Mali: o terceiro golpe de Assimi Goita

Face à exigência da CEDEAO, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, de realização de eleições legislativas no Mali em fevereiro próximo, o coronel Assimi Goita, presidente interino (PRI) do Mali e líder da junta militar que governa o país, tomou por opção anunciar, ainda antes de o ano terminar, um prolongamento do período de transição de seis meses para cinco anos, projectando os militares no poder até 2026. Desta forma, o PRI e os seus colegas de curso da Academia Militar de Kati abriram caminho ao que se pode considerar como um terceiro golpe, após o de agosto de 2020, que depôs o PR Ibrahim Boubakar Keita e o de maio de 2021, correcção de tiro apelidada de "golpe dentro do Golpe".

Dadas as particularidades dos "malis" existentes, um saheliano e outro subsariano, compreendo que seis meses sejam curtos para arrumar a casa. Há sobretudo que recensear as populações, sendo que "nesta África", como na restante, por via da dispersão das populações e da falta de uma rede viária e ferroviária lata e democrática (no sentido de acudir a todos), não são os cidadãos que se deslocam aos centros de recenseamento, mas antes o Estado que providencia caravanas de recenseamento, que percorrem as estradas principais e nunca durante a época das chuvas, com paragens nos principais centros urbanos, onde servem uma população voluntária, mas nunca a totalidade dos que nas aldeias limítrofes não têm meios de aí se deslocar, ou para tal terão de caminhar dois ou três dias. Não vale o esforço de quem já não acredita nos políticos e este processo não se concretiza em seis meses. Mais difícil ainda é a pacificação e o desmantelamento da miríade de milícias étnicas que se foram formando no norte saheliano desde 2012 e integrá-los no Exército Nacional. Não falo dos grupos jihadistas, mas das milícias que estes fomentaram junto das populações ao colocarem a "aldeia de cima" contra a "aldeia de baixo", por via das diferenças étnicas, religiosas, do acesso ao poço com água, ou mesmo por causa de um casamento qualquer que até poderia resultar numa união entre comunidades há muito desavindas. Isto também não se resolve em seis meses, bem como não se inventam empregos e projectos de vida a uma juventude que demograficamente representa cerca de 60% da população, desempregada e à mercê da aventura que uma arma na mão lhes projecta, em busca de justiça que muitas vezes mais não é que simples vingança primária sobre assuntos para nós considerados secundários! Há mais, começando pelas alterações climáticas, que não são culpa da inexistente indústria local e que secam uma vida de transumância, empurrando comunidades inteiras para o abismo do fim. Um "guardador de rebanhos" só o é com gado e este só existe graças à existência de água e de pasto. Isto não se resolve, ponto!

Cortina de fumo

Quando em agosto de 2020 publiquei análise sobre o primeiro desta sucessão de golpes e coloquei a hipótese de uma russian connection, houve quem discordasse. Hoje, menos de dois anos passados, cerca 350 "Wagner russos" avançam de Bamako para Tombuctu e, no Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China vetaram a aprovação de um texto das Nações Unidas, que reiterava as posições da França e da União Europeia, em apoio às sanções impostas pela CEDEAO, que agora tenta colmatar as suas fraquezas ao impor o fecho de fronteiras, voos e todas as transacções comerciais com o Mali.

Goita e seus camaradas necessitam de cinco anos para consolidarem uma mudança de parceiro estratégico, após a França ter anunciado o fim da Operação Barkhane. Entretanto, a Rússia instala-se!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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