Malditos pobres que teimam em ser pobres

Um governo que se diz de esquerda e existe há seis anos apoiado por socialistas e comunistas está no seu estertor preso à dura realidade de não ter sido capaz de mudar estruturalmente a vida dos pobres para que os seus descendentes não tenham de continuar a ser pobres. Reduziu-se a taxa de abandono escolar, o que é um ótimo sinal, mas falta conseguir o passo seguinte que é melhorar a qualidade do emprego para pessoas que chegam ao mercado de trabalho com melhores qualificações.

Dez por cento da população trabalhadora vive na pobreza (dados da Pordata referentes a 2019), confirmando ao mesmo tempo uma esquerda incompetente e uma direita intolerante que estigmatiza os pobres, acusando-os de serem responsáveis pela sua própria pobreza, por não quererem trabalhar. Como se vê!!!

Por mais que, ocasionalmente ou acidentalmente, o número de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza baixe, há décadas que, uns pontinhos para baixo ou uns pontinhos para cima, um quinto dos portugueses vivem na pobreza. E não, não insistam na tese liberal de que é preciso primeiro aumentar a riqueza, porque o mesmo estudo da Pordata serve para nos lembrar que fechámos a década anterior aumentando outra vez a desigualdade, sendo que os 20% mais ricos ganharam cinco vezes mais do que os 20% mais pobres.

Os pobres e uma parte da classe média-baixa vive em habitações sem qualidade, casas onde acontece pelo menos uma de três coisas: um telhado que deixa entrar água, paredes/soalhos/fundações húmidos ou apodrecimento dos caixilhos das janelas ou do soalho. O que mais deveria envergonhar esquerda e direita é o facto de nestas casas viverem milhares de crianças que nunca saberão o que é a igualdade de oportunidades. Estão condenadas pela casa onde vivem, pelo apoio familiar que lhes falta, pela impossibilidade de acesso às novas tecnologias, pela falta de uma alimentação saudável e equilibrada.

Se somos incapazes de apontar o dedo a estas crianças, não aceitando imputar-lhes culpa pela sua condição de pobreza, é importante que quando somos confrontados com a pobreza em idade adulta procuremos perceber a sua condição à luz do seu percurso de vida. A discriminação pela pobreza é a mais comum das discriminações. Os que recebem abono para os filhos, RSI, ajuda alimentar de instituições de solidariedade, não ficam ricos com tantas "benesses", continuam pobres e sem condições de garantir que os seus filhos vão conseguir sair da espiral de pobreza onde também eles foram criados. Não, pobre não é quem não quer trabalhar. Pobre não é quem quer, mas quem não consegue deixar de ser.

A direita que estigmatiza a pobreza, ancorada num discurso extremista e de ódio contra os que necessitam de apoios sociais, ou a esquerda que sequestra os pobres para alimentar a sua agenda política beneficiam da perpetuação da pobreza que alimenta a sua clientela política, parte dos seus eleitores. Não se atrevam a dizer que a culpa é das vítimas. Nada devia envergonhar mais um país que se prepara para celebrar 50 anos de democracia do que este chip que se coloca nos pobres quando nascem e os acompanha ao longo da vida, como quem procura ter a certeza de que a pesada herança vai passar de geração em geração.

Jornalista

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