Mais longe do que Jeff Bezos

Por falar em férias, durante muitos séculos os relógios eram coisa de rico, e o tempo, tirando o sol a sol, era marcado a toque de sinos, coisa de campanários. Com o tempo, foi-se democratizando a contagem das horas e dos dias. E, hoje, as novas tecnologias estão a mudar as nossas vidas e a alterar a nossa relação com o tempo, na forma intrusiva como percebemos a sua passagem. Impacientes, cada vez mais impacientes, parece-nos por vezes que o nosso relógio interior funciona mais rápido, acelera. Temos, então, a impressão de que o tempo voa, impelidos agora por esse engenho que convertemos num prolongamento do próprio corpo, o omnipresente telemóvel: para uma conversa, como ferramenta de trabalho, mas também para entretenimento, sempre pronto a oferecer-nos nova distração. Acontece, porém, que esse mesmo artefacto também funciona como congelador de instantes, a suspender-nos a vida na espera de uma resposta que não chega. E então parece que o tempo desesperadamente se alonga. Ora, gozar férias tem de significar romper com essa artificial sensação de urgência, quebrar rotinas ou, simplesmente, descansar.

Há quem se desculpe não saber fazer outra coisa que não seja trabalhar. Ora, todos podemos e devemos aprender a virtuosa arte do descanso. Aliás, é das encíclicas que, acima de tudo, o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho. Trabalhar tem de ser um exercício de humanização, evitando transformar pessoas em máquinas de fazer coisas, realizar tarefas. É bem justo ganhar a vida. Mas é uma injustiça estragar a saúde e descarregar os nervos cansados na família, nos amigos e colegas. Fazer férias e descansar é uma questão de justiça social. A fatura do cansaço nunca é paga só por nós, mas por todos aqueles com quem vivemos ou que encontramos. As férias e, em geral, os tempos de descanso são antídoto contra o nervosismo e a conflitualidade, são a vitamina que dá qualidade à vida e transmite paz e alegria à nossa volta.

Apesar de mal-afamadas entre os que apenas conhecem a sofreguidão destravada do trabalho que explora os mais pobres, as férias são conquista de homens livres. Descansar é um verbo divino. E o maior elogio das férias e do descanso é invocar o seu divino inventor. É do livro do Génesis que "Deus repousou ao sétimo dia de todo o trabalho realizado. Abençoou-o e santificou-o, visto ter sido nesse dia que descansou de toda a obra da criação". Importa, pois, descansarmos. Para os crentes, como Deus manda. De resto, para esses e para os outros, investigadores finlandeses quiseram apurar o número mínimo de dias de descanso que deveríamos tirar. Acompanharam 54 trabalhadores, de diferentes atividades e em períodos diferentes de férias. E concluíram que só ao oitavo dia é que verdadeiramente começamos a repousar.

Assim, por exemplo: existe uma invenção que, com um investimento mínimo, permite viajar mais alto e mais longe do que Jeff Bezos. E não só no espaço, mas também no tempo. Para nos levar a terras remotas, porventura até dentro de nós, não há nave melhor do que um livro: é leve e de fácil carregamento essa cápsula que nos permite cada viagem, e basta uma mão para pilotá-la. Um livro, esse invento tão antigo como pouco conhecido, é capaz de suprimir distâncias físicas ou promover o diálogo e aproximar gentes, culturas e civilizações. Nem de propósito, bastou-me encostar por minutos num alfarrabista de Lagos, para uma recarga de quatro, quanto me custou voltar a Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. Há destinos e viagens a que nos apraz regressar, sempre. Boas férias, para quem pode.

Jornalista

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