Lições de eleições locais

As eleições locais servem normalmente para punir os governos a meio do mandato, mas as que tiveram lugar no Reino Unido, no início do mês, resultaram no oposto. Os conservadores preservaram a sua representatividade, vencendo mesmo em bastiões da cintura industrial trabalhista, uma dinâmica que se tem consolidado mais ou menos desde que o voto pelo Brexit coincidiu ali com a posição do partido conservador. Ora, fechado o dossier, não havia razão aparente para um regresso desse eleitorado ao partido trabalhista. Esta frase é suficientemente dura por indicar um bloqueio evidente na atração eleitoral do partido, mas existem razões políticas para isso.

A primeira é que o conservadorismo de Boris Johnson não está alinhado com o Estado mínimo de Thatcher. Basta ver o seu mais recente programa legislativo anunciado há dias pela voz da rainha: investimento público na saúde, educação, infraestruturas e segurança. Johnson está mais do que confortável com o chamado active state, uma formulação magnânima de intervenção pública que acontecia já antes de a pandemia bater à porta. É esta receita política e legisladora que seca grande parte da oferta do partido trabalhista, empurrando-o para outras escapatórias. Quais? A apresentação de um plano alternativo para o Brexit ou pós-Brexit, uma variante madura às opções tomadas pelo governo na primeira fase da Covid, uma solução mais articulada para a Escócia, uma ideia clara sobre a integração de imigrantes ou para uma transição da economia ajustada à crise climática. Acontece que nada disto aconteceu. Ou, pelo menos, nada do que poderia ter passado para o eleitorado surtiu qualquer efeito regenerador.

Esta é a segunda explicação para o declínio dos trabalhistas: uma total desconexão entre a mensagem política e os vários eleitorados. Os mais velhos, das zonas industriais, transitaram para os conservadores, munidos do chapéu legislador, do corte com a UE e da proteção identitária inglesa; já os mais novos têm dispersado votos, embora muitos estejam a alinhar progressivamente com os Verdes, que estão num contínuo crescimento local e, no caso da Escócia, são hoje chave no apoio ao SNP para uma hipotética segunda chamada a referendo sobre a independência.

A ilusão de que uma passagem de poder de Jeremy Corbyn para Keir Starmer iria reposicionar o partido num trajeto de reconquista (os trabalhistas estão há 11 anos afastados de Downing Street), teve algum eco em sondagens durante a primeira fase do combate à pandemia, mas o sucesso da vacinação acabou por condicionar a indispensável definição estratégica da nova liderança. O contraste pessoal entre Starmer e Johnson não chega para reconquistar votos, a indefinição das mensagens tem sido fatal à mobilização, e a falta de entrosamento mínimo com sociais-democratas europeus e norte-americanos dificulta qualquer afirmação interna. Neste momento, as duas únicas fontes de proteção do partido trabalhista são o sistema eleitoral e as vitórias de Sadiq Khan em Londres.

Tivesse o Reino Unido regras eleitorais distintas e provavelmente estaríamos a ver o mesmo que está a acontecer na Alemanha, com os Verdes a serem o grande partido das novas gerações, das transições energética, digital e urbana, da articulação entre o papel ativo do Estado e a iniciativa privada, convictamente europeísta, mas alinhado com a segurança transatlântica. Simplificadamente e com as devidas adaptações temporais, foram mais ou menos estas fórmulas que deram aos trabalhistas de Tony Blair três maiorias absolutas consecutivas. Por este caminho, o partido arrisca-se a perder as quintas legislativas seguidas em 2024.

Investigador

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