Líbia: primeiro governo de unidade nacional em 7 anos

Este 10 de Março marca para os líbios o início de uma nova fase, que pelo menos terá como missão aguentar-se até à véspera de Natal, data da realização das próximas eleições gerais.

O novo primeiro-ministro (PM), Abdelhamid Dbeibah, fez fortuna juntamente com o seu primo direito e cunhado, Ali Ibrahim Dbeibah, durante a última década do regime Kadhafi. O boom petrolífero que se seguiu ao levantamento de sanções britânicas e americanas, em 2003, conduziu ao boom na construção civil, e os primos, que sabiam que a festa não duraria para sempre, cobravam uma média de 20% de comissão por cada obra aprovada, sendo certo que fora a esta família que Kadhafi entregou o carimbo das aprovações.

Desta forma se prova a contínua influência que o defunto ditador continua a ter nos destinos do país. O nome do agora oficialmente PM Dbeibah é sugerido para discussão em Genebra no início de fevereiro, num pacote com quatro nomes a "selecionar" pelas Nações Unidas, do qual sairia um nome para posterior aprovação pela Casa dos Representantes em Tripoli (que aconteceu na quarta-feira, 10). Ora, foi a presença do primo Ali Ibrahim Dbeibah, entre os 74 delegados votantes na reunião, e enquanto suposto homem mais rico da Líbia, que virou a votação a seu favor, quando o nome mais consensual apontava para o então ministro do Interior, Fathi Bashagha.

A condução deste processo pelo primo Ali, e a apresentação a votação na quarta-feira de um governo com 33 ministérios, começa já a levantar suspeitas de corrupções futuras na condução dos negócios de Estado. Normal, já que o magrebino é um "português norte-africano", de língua afiada e uma mágoa sempre por partilhar.

Mas este governo é mais do que um "Ali Babá e seus ministros"! Sendo de unidade nacional, incorpora também um Conselho Presidencial que agrega um representante de cada região do país. Presidido por Mohamed Younis Ahmed al-Manfi da Cirenaica, a leste, também integra Abdullah al-Lafi, vice-presidente para a Tripolitânia, a o,este e Musa al-Koni, vice-presidente para Fezzan, a sul.

Mas com quem o novo PM poderá jogar melhor xadrez, talvez seja com Aguila Saleh Issa, o presidente da Casa dos Representantes, que finalmente regressa a Tripoli pela porta grande, após a fuga que encetou em 2014 para Tobruk, aquando da tomada da capital por milícias. É este acontecimento, aliás, que marca a partição do país, com um Parlamento em Tripoli e outro em Tobruk. Saleh passa assim de oficioso a oficial, tendo um peso importante junto do marechal Haftar, o homem dos russos.

Sendo o actual PM Dbeibah o homem dos turcos, a paz só será garantida caso ambas estas potências garantam um retorno chorudo de todo o investimento de guerra que canalizaram na última década para a Líbia. Para tal, o petróleo terá de voltar a jorrar do subsolo em quantidades "kadhafianas", apesar da baixa dos preços e das perspectivas mais ecológicas. Depois o mar, a Turquia quererá garantir a extensão do Acordo Marítimo assinado em 2015 com o Governo de Acordo Nacional, a toda a costa líbia e a Rússia uma base naval em Benghazi, região ainda controlada pelo Exército Nacional Líbio, na eterna procura das "águas quentes", razão pela qual mantém também o apoio à dinastia Assad na Síria.

Para já, temos um PM milionário, e sempre ouvi dizer que essa seria a solução, pois não precisará de roubar!


Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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