Ler ou não ler, eis a questão

Saber ler é fundamental nas sociedades modernas. Mas a leitura, ao contrário da linguagem, não emerge naturalmente. Requer um ensino sistemático e coerente com o sistema de escrita. A aprendizagem do código alfabético é a primeira tarefa com que se confronta o aprendiz da leitura, constituindo, juntamente com a fluência, a base da compreensão da leitura. Da solidez desta base dependem todas as aprendizagens posteriores. Aprender o código alfabético significa conhecer as correspondências letras-sons, quer no contexto de letras isoladas, quer no contexto de cadeias de letras (palavras). O papel do ensino é particularmente relevante nesta aprendizagem, possivelmente mais do que em qualquer aprendizagem escolar posterior.

O objectivo de ler é, muito simplesmente, retirar significado daquilo que se lê. Aprender a ler não é natural, e é difícil para muitas crianças. Exige, por isso, um ensino de qualidade e assente na melhor evidência científica disponível.

Leitura, escrita e fala

A relação entre leitura, escrita e fala é elementar, mas não intuitiva. A escrita constitui um código para a fala. No caso das escritas alfabéticas, as letras (os símbolos do alfabeto) procuram reproduzir as unidades mais pequenas da fala: os fonemas. Isto não significa que o alfabeto seja a forma mais eficaz de representar todos os tipos de fala, mas é a este nível que fala e escrita se ligam.

Para ler, e ainda mais, para escrever, temos de recordar os sons individuais da fala, o que constitui um exercício complexo, uma vez que, quando falamos, os sons parecem misturar-se (a chamada co-articulação). Na escrita, porém, tem de haver uma representação o mais individualizada possível de cada som da fala. Deste modo, para escrevermos certas palavras, temos de pensar, esforçadamente, em quais são, e quantos são, os sons que as constituem. E lentamente, já agora!

Aprender a ler num sistema alfabético

A discussão sobre a melhor forma de ensinar as crianças a associar os símbolos da escrita à linguagem tem muitas décadas, e assenta, frequentemente, em pressupostos pedagógicos. Porém, o método mais apropriado de ensino deriva da natureza do sistema de escrita e não de filosofias pedagógicas.

Num sistema de escrita alfabética, se a criança aprender a descodificar a relação entre letras e sons, será capaz de transformar palavras escritas em palavras faladas. Se não for capaz de o fazer, poderá, quando muito, associar um pequeno grupo de palavras escritas à sua forma falada. Este será um processo ineficiente de aprendizagem emparelhada (no qual o sujeito tenta decorar pares de «palavras escritas/sonoridades»), que esbarra nas limitações da memória para processar uma significativa quantidade de parelhas.

O conhecimento das correspondências letras-sons, neste sistema de escrita, é extremamente económico, uma vez que assenta num reduzido número de letras que podem representar todas as palavras da língua. Melhor ainda, cada aprendizagem cria condições para um maior sucesso nas aprendizagens seguintes.

O ensino da leitura num sistema alfabético

Salvo raríssimas excepções, não é possível que as crianças descubram, sozinhas, o funcionamento do sistema alfabético, nem as suas correspondências grafo-fonémicas particulares. A escrita constitui uma invenção do sistema social e nada tem de biológico, pelo que não se pode esperar a aprendizagem espontânea da leitura. O ensino do princípio alfabético tem de ser sistemático, persistente e assente no princípio da sobre-aprendizagem (quando o sujeito já parece saber, deve persistir-se na exposição às correspondências, até se atingir o reconhecimento automático). Deve começar pelas unidades mais pequenas (letras), expandindo-se progressivamente para sílabas e palavras.

Aprender a descodificar automaticamente as palavras do texto constitui a tarefa central (ainda que não suficiente) da aprendizagem e do ensino da leitura. Se esta aprendizagem não ficar firmemente estabelecida, as tarefas subsequentes (em particular, a compreensão do texto) ficarão prejudicadas ou inibidas. Nunca será de mais, por isso, realçar a sua relevância. A expressão corrente, «vai lendo», sugere que uma determinada criança lê sem fluência e/ou expressividade, logo, sem compreensão. Não por acaso, as dificuldades de descodificação na leitura estão na base da larga maioria dos problemas de compreensão, os quais, com o tempo, tendem a agravar-se, não a melhorar.

João Lopes é Professor de Psicologia na Universidade do Minho e coordenador do Programa AaZ - Ler Melhor, Saber Mais da Iniciativa Educação, cujos artigos de divulgação de informação sobre educação são este mês publicados numa parceria com o DN.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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