Lembrança das margens do Arno

Na última crónica, recordámos a mãe de António Osório, com especial ternura, a ler a seu filho Dante em cadência florentina, lembrando as margens do Arno: "Quinci compreender puoi ch"esser convene / amor sementa in voi d"ogne virtute / e d"ogne operazion che merta pene" ("Assim compreenderás que ser convém / o amor semente em vós só de virtude / e da operação que pena tem." - Purgatório, Canto XVII). Ora, a celebração do sétimo centenário da morte de Dante Alighieri tem permitido uma reflexão de grande interesse sobre as bases da cultura europeia, abrangendo referências clássicas e modernas. A publicação da nova tradução da Divina Comédia, da autoria de Jorge Vaz de Carvalho (INCM, 2021), tem permitido uma releitura séria e exigente da obra-prima, sem esquecer o pioneirismo e o sentido poético de Vasco Graça Moura, que não devem ser esquecidos. Depois da extraordinária Conferência do Cardeal José Tolentino Mendonça, Alberto Manguel tem-nos ajudado nesse encontro sublime, do mesmo modo que os participantes nas iniciativas em torno das "Visões de Dante. O Inferno segundo Botticelli", como Teresa Bartolomei e João R. Figueiredo, graças à presença na Fundação Gulbenkian de dois excecionais desenhos do genial artista, pertencentes à Biblioteca Apostólica Vaticana.

Tomamos consciência de como a narrativa, presente nos diálogos de Dante com os seus interlocutores, a começar em Virgílio, demonstra como a humanidade é sustentada pelas palavras. E assim a sabedoria equipara-se à justiça, e a justiça à sabedoria - mas trata-se de uma espada de dois gumes em que justiça e injustiça coexistem, como faces da imperfeição humana. E no Céu de Júpiter tal torna-se evidente perante o desfile dos legisladores justos do mundo, que nos permite compreender as palavras de S. Paulo: "o amor jamais passará. As profecias terão o seu fim". E o que significa a justiça? A Ética a Nicómaco de Aristóteles, no Livro V, o preferido de Dante, dá-nos a chave. Trata-se de garantir o equilíbrio entre o excesso e a carência e de encontrar o cerne da relação humana como equilíbrio e equidade. A divisão entre justiça distributiva e comutativa, contrapõe justiça pública, visando conter os conflitos entre cidadãos, e justiça divina que visa os perversos pelo metafórico dinheiro, e suscita a piedade e o pesar diante de pecados semelhantes aos nossos.

António Mega Ferreira tem referido, com razão, que a obra de Dante teria sido diferente se ele não tivesse sido condenado a um exílio injusto da sua amada Florença. Daí a "tonalidade trágica de um ajuste de contas com o mundo terreno e uma tão exaltada aspiração à fusão com o rosto de Deus". A narrativa não é ilusória. Na Comédia há uma geografia. "O Inferno, o Purgatório e o Paraíso são lugares reconhecíveis organizados por leis físicas e definidos por características geológicas específicas. Caminhos ao longo dos quais o peregrino tropeça, precipícios que têm de ser ultrapassados por meios sobrenaturais, rios que devem ser atravessados com o auxílio de barqueiros experientes, trilhos íngremes que exigem a destreza dos montanheiros, distâncias mensuráveis e locais assinalados com precisão topográfica - tudo isto é detalhado através do olhar do agrimensor, e até mesmo os nove céus sem espaço nem tempo são descritos com precisão através das suas peculiares leis físicas" - lembra Manguel (Expresso, 30.10.2021). E quando Virgílio aconselha Dante, antes de chegar ao Quarto Círculo do Purgatório, encontra a chave do enigma que Aristóteles desenha e apenas o poeta florentino consegue solucionar - a justiça apenas pode fazer-se com amor e o amor com justiça. É a compreensão da dignidade humana que permite ir além de uma justiça puramente formal.


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

Mais Notícias

Outras Notícias GMG