Le Pen e as nossas penas

Marine Le Pen veio a Portugal para apoiar o seu parente ideológico. A senhora é, em França, a face mais visível e feroz do extremismo de direita. O seu partido, o Rassemblement National (RN), é um apanhado de retrógrados, neofascistas, racistas, rufiães, antiglobalistas, bem como de vários órfãos políticos e outros ressabiados. A salgalhada inclui parte dos novos pobres, um proletariado que a modernização e a internacionalização da economia empurraram para os subúrbios da política e da vida. O RN representa um pouco mais de 20% do eleitorado, uma percentagem reveladora de uma França cheia de contradições, frustrações, desigualdades e ódios. Na cena partidária do país, Le Pen e os seus são olhados, incluindo pela direita conservadora, como nada recomendáveis, gente que não se deve frequentar.

Em 2017, Le Pen foi à segunda volta das eleições presidenciais contra Emmanuel Macron. Saiu inequivocamente derrotada e com uma imagem de incompetência. No debate televisivo contra o seu opositor, meteu os pés pelas mãos, quando questionada sobre temas de substância. Não conseguiu ir além das chapas estereotipadas. Ficou assim confirmado que a sua ideologia era oca, forrada com ultranacionalismo primário, passadismo, xenofobia e uma ambição pessoal desmedida.

Prepara-se, agora, para as presidenciais de 2022. Uma parte da direita conservadora sabe que um novo embate entre Macron e Le Pen acarretará uma nova derrota. Por isso tem procurado encontrar uma alternativa mais credível, mas sem o conseguir. Marine Le Pen e a implantação local do RN não deixam espaço para essas manobras. O rosto do extremismo de direita continua a ser o seu. Porém, depois do fracasso de 2017, a senhora aprendeu que o poder não se conquista, numa sociedade politicamente madura, com meras tiradas de bota-abaixo. Na entrevista ao Diário de Notícias (10/1/2021), deixou claro que a sua campanha se irá concentrar em quatro temas - segurança, imigração, família tradicional e emprego. Na realidade, isto significa que, para ganhar votos, procurará explorar os medos e as fragilidades, sobretudo o pavor do que é estrangeiro, os sentimentos de precariedade e de injustiça social, bem como os preconceitos decorrentes de uma visão antiquada das relações entre as pessoas.

No fundo, a principal estratégia de Le Pen e de todos os extremistas consiste na diabolização de uma categoria de cidadãos, na criação de um inimigo interno, que passa a ser o foco visível e repetido de todos os ataques. No caso francês, é fácil identificar esse alvo - os muçulmanos. São eufemisticamente designados como "imigrantes" e concentram todo o fogo que o RN traz para o combate. A isso junta-se uma retórica de nacionalismo económico, que jura defender os empregos dos franceses. Assim surgem os slogans contra o islão, a imigração, a globalização e fortemente anti-UE, bem como as bandeiras do patriotismo patético e da civilização ocidental à moda RN.

Foi esta personagem que veio apoiar o "primo" português. Durante a estada, poderá ter notado que as hipóteses de crescimento da extrema-direita lusa são praticamente inexistentes. Falta aos nossos exaltados um grupo social que possa ser efetivamente referenciado como uma ameaça para a segurança da sociedade e a preservação da cultura nacional. Sem um alvo que faça medo, os movimentos radicais não ganham força. Não existindo fraturas nacionais graves, o "primo" não teve outro remédio senão focar-se no único grupo social que apresenta algumas diferenças em relação à generalidade dos cidadãos. Mas este grupo - a comunidade cigana - não é visto pelo resto dos portugueses, apesar de existirem imagens e preconceitos que vêm de longe, como uma ameaça existencial. São, antes pelo contrário, pessoas tidas como vulneráveis e sem poder. A verdade é que os extremistas da direita portuguesa, ao contrário do que acontece noutros países europeus, têm pouco espaço político, por não haver um filão identitário que possa ser explorado.

Isto não significa que não se deva estar atento. Antes pelo contrário. Aqui, como no resto da Europa, os próximos anos vão conhecer grandes crises sociais, no seguimento da pandemia. E as crises de envergadura costumam abrir as portas ao aparecimento de pretensos salvadores da pátria que, ensina-nos a história, sempre a afundaram.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-representante especial da ONU

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