Kabilya: o 25 de Abril amazigh foi em 1980

Um centro universitário, um escritor-antropólogo-poeta, uma conferência e um Peugeot 204 incendiaram o norte da Argélia há 41 anos, no que ficou conhecido por Primavera Amazigh, ou Berbere, forma talvez menos estranha de o dizer para os portugueses.

O centro universitário era em Tizi-Ouzou, o escritor chamava-se Mouloud Mammeri, a conferência era sobre "Poesia Kabilya Ancestral", assunto sobre o qual tinha publicado livro recentemente, e o Peugeot 204 foi o carro no qual se dirigiu acompanhado por mais dois companheiros de luta pelos direitos dos/as autóctones magrebinos/as, para o evento proibido marcado para o dia 20.

Para resumir ao essencial este tema dos direitos e da luta destes berberófonos por todo um Magrebe que a maioria dos europeus crê tratar-se apenas e só de deserto, digo o seguinte. O autóctone amazigh/berbere, o "magrebino de gema", que sempre lá esteve, dá graças a Deus por ter sido islamizado pelos árabes, mas vê também nestes o filho da mãe do colonizador que lhes ficou com as terras, lhes aculturou os hábitos e tradições e lhes proibiu a(s) língua(s) materna(s). Logo, proibir a realização de uma simples conferência sobre poesia na sua língua semiclandestina ganha a dimensão e a consequência de uma mini-revolução que no limite exige logo o impossível, a independência da Kabilya.

Estes "magrebinos de gema", terra-tenentes e guardiões da tradição, sempre conseguiram sobreviver às diferentes vagas colonizadoras do tempo, fechando-se nas suas comunidades, preservando a sua língua e tradições, permitindo àqueles que vivem em zonas montanhosas, como são os casos da Kabilya na Argélia e do Rif em Marrocos, a criação de bolsas territoriais com leis e práticas próprias, onde o estranho, desde que não seja árabe, é sempre muito bem recebido.

No caso particular dos kabilas, foram sempre mascarados a partir de Argel, como perversos berbero-marxistas, o que no contexto da guerra fria permitia ao poder central árabe argelino ter mão larga no boicote às suas iniciativas culturais sem a necessidade de grandes justificações internacionais.

A luta pelos direitos dos amazighes na Argélia remonta a período muito anterior ao da luta pela independência do país face à França e viu neste 20 de Abril de 1980 um ponto de partida final e sem retorno, já que as greves gerais, de zelo, o isolamento a que a Kabilya foi votada face ao mundo nos anos subsequentes, mais a repressão policial argelina, agigantou este povo das montanhas numa contestação em crescendo, que conduziu a nova abrilada em 2001, desta vez apelidada de Primavera Negra, pela morte do estudante Masinissa Guermah a 18 de Abril, em Beni Douala, sempre na contestatária Kabilya e cujos protestos posteriores viram o massacre de 127 kabilas e milhares de feridos.

Estas são, aliás, as principais razões pelas quais se justifica o facto de a Argélia ter passado ao lado da Primavera Árabe iniciada em 2011, já que se desenhava o inevitável e que acabou por acontecer em fevereiro de 2016, quando uma larga maioria parlamentar em Argel aprovou uma revisão constitucional, na qual consagrou o Tamazight como língua oficial da República, o ganho político possível, mas muito desejado por esta frente cultural contestatária e que vais do Magrebe até ao Curdistão!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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