José Mourinho e o nosso mundo mediático

Na sequência do despedimento do cargo de treinador do Tottenham, José Mourinho tinha um batalhão de repórteres à porta de sua casa, em Londres. O canal Sky Sports divulgou um breve registo da sua chegada, com o repórter Gary Cotterill a perguntar-lhe se tinha algo para comentar; Mourinho agradece, dizendo que não. O treinador vai tirando alguns objetos da bagageira do carro, Cotterill segue-o, não obtém qualquer resposta, acabando por expressar um voto: "Regresse ao futebol assim que for possível." O vídeo termina com a frase: "Estou sempre no futebol."

Eis um belo momento de reportagem, que, como todos os momentos televisivos, os mais nobres e também os mais horríveis, pode ser confrontado com aquilo que quase nunca é mostrado: o ponto de vista daquele (ou daqueles) que é (ou são) objeto eleito pelos microfones e câmaras. Ou, em termos cinematográficos: as imagens em contracampo, isto é, o olhar do outro.

O certo é que, desta vez, temos mesmo um contracampo: Mourinho colocou no Instagram um vídeo, ainda mais breve, em que a câmara do seu telemóvel oscila duas vezes entre Cotterill e alguns dos repórteres de imagem. Em off, podemos ouvir a voz do próprio Mourinho: "Não me dão privacidade. Até mesmo o meu amigo Gary me está a perturbar. É a minha vida."

Não se trata, entenda-se, de tomar o vídeo como pretexto para discutir a performance profissional de Mourinho, até porque, neste contexto, corremos o risco de nos perdermos num miserável desporto "social": assim como há dias predominavam as vozes que censuravam o trabalho de Mourinho, não poucas vezes com insultos e difamações que as "redes" naturalizaram, agora quase todos parecem querer canonizá-lo... "The best", escrevem os mais entusiasmados.

Acontece que Mourinho, "bom" ou "mau" treinador, humilde ou arrogante, continua a possuir esse talento pedagógico, hoje em dia raro (em particular na classe política), que consiste em confrontar o trabalho jornalístico com os efeitos descritivos, argumentativos e simbólicos das suas linguagens. A saber: com a perceção do mundo que, através dessas linguagens, somos levados a elaborar.
Infelizmente, não é fácil pensar tal questão como inerente à ética jornalística. Mais do que isso: vital. A sua formulação tende a atrair uma resistência automática: estaríamos a demonizar "todo" o jornalismo, a começar pelo jornalismo televisivo... Na verdade, o que está em jogo não é qualquer generalização do género, antes a necessidade (a meu ver, a urgência) de reconhecermos que a nossa visão do mundo passou a ser maioritariamente construída sobre e sob informações - imagens e sons - que recebemos através da chamada comunicação social. Daí uma primeira pergunta: o que é que se comunica? Logo seguida de outra: que noção de sociedade se está a comunicar?

No seu livro Olhando o Sofrimento dos Outros (ed. Quetzal, 2015), Susan Sontag refere esse campo/contracampo de olhares analisando o funcionamento das exposições de fotografias que mostram "atrocidades infligidas aos de pele mais escura em países exóticos". Não porque ela minimize a importância moral e política de denunciar as formas de violência que as imagens dão a ver. Antes para chamar a atenção para a ausência de qualquer dialética de conhecimento, "pois o outro, ainda que não inimigo, é olhado apenas como alguém para ser visto, não alguém (como nós) que também vê".

Ora, Mourinho resiste a ser tratado como alguém que existe apenas "para ser visto", isto é, como marioneta da agitação informativa. Claro que tudo aquilo que ele possa protagonizar não passa de um percalço benigno face aos horrores que motivam a análise de Sontag. Não é isso que está em causa. Nem é, obviamente, a legitimidade do olhar jornalístico: o que está em causa é o facto de aquele que é olhado também ter direito ao seu olhar.

Ou ainda: se o vídeo de Mourinho tivesse sido difundido pelo menos um décimo das vezes que foi mostrado o grupo de microfones e câmaras a correr atrás dele, a nossa perceção do acontecimento seria outra. "Melhor"? "Pior"? Apenas outra.

Jornalista

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