Jacarandás em flor

Eugénio de Andrade fala-nos de um encontro singular. "Nesta cidade, onde agora me sinto / mais estrangeiro do que os gatos persas; / nesta Lisboa, onde mansos e lisos / os dias passam a ver as gaivotas, / e a cor dos jacarandás floridos se mistura à do Tejo, em flor também, / só Cesário vem ao meu encontro..." A cidade lembra esse momento. Desde o dia 5 de maio que os jacarandás estão floridos, agora na sua máxima pujança, dando às artérias da cidade, em São Bento, São Mamede, Rato, Rua Castilho, Parque Eduardo VII ou na 5 de Outubro, uma beleza fulgurante, numa verdadeira explosão violeta que nos deixa extasiados. Lembra-se o tempo em que a capital foi o Rio de Janeiro.

Foi Félix de Avelar Brotero (1744-1828), o naturalista de saber enciclopédico, lente de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra, sucessor de Domenico Vandelli, autor da célebre Flora Lusitânica, amigo de Filinto Elísio, diretor do Jardim Botânico da Ajuda, quem trouxe para Lisboa os jacarandás, vindos do Brasil. O cientista usou o método do estudo experimental e considerou necessárias as referências tropicais, recordando o espírito de viagem e o apelo das diferentes culturas. Era um botânico prático, a ponto de ter visto a vida em perigo em muitas das suas investigações no terreno - em acidentes na serra da Estrela, ataques de salteadores e tentativas de assassinato por pastores tementes de que o cientista quisesse privá-los dos baldios. E assim teve influência marcante nos progressos registados no seu tempo, evidentes na correspondência que manteve com os mais célebres botânicos e as instituições mais prestigiadas.

Houve receios de que os jacarandás não se adaptassem ao clima europeu, mas depois das experiências de aclimatação os resultados foram positivos, verificando-se mesmo que a memória genética dos jacarandás de Lisboa permite uma floração leve no outono, quando é primavera na América do Sul. E em lembrança das andanças dos portugueses pelo mundo, o cientista introduziu ainda na cidade outras espécies exóticas, como a "paineira branca" (Chorisia speciosa), que encontramos junto aos Jerónimos ou no Campo de Santana; a tipuana, que vemos no Jardim da Estrela ou no Cais do Sodré; o cipreste-do-buçaco ou cedro-de-goa (Cupressos lusitanica), trazido na época dos Descobrimentos, e por isso identificado como português, mas vindo das Américas, que encontramos no Príncipe Real; além do misterioso dragoeiro, proveniente da Macaronésia, árvore sagrada dos guanches das Canárias, referência dos Açores, Cabo Verde e Madeira, de seiva vermelha, o sangue do dragão, e referido por Lineu a partir da informação portuguesa, também encontrável no Jardim da Estrela e no Jardim Botânico Tropical.

Foi António Barreto quem me levou a registar em cada ano o momento em que as flores lilases começam as despontar. O exercício tornou-se rotineiro e gostoso. As cidades ligam-se naturalmente à vida das árvores e das plantas. Em Paris, a mais imponente das árvores do Jardin des Plantes, um cedro-do-líbano, foi trazido por Bernard Jussieu apenas no seu chapéu. A "árvore-do-imperador" do Jardim da Politécnica foi oferecido pelo imperador D. Pedro II do Brasil ao conde de Ficalho. A palmeira-real do Botânico do Rio de Janeiro foi plantada pelo príncipe regente D. João, recém-chegado, e replantada por Hélio Jaguaribe, em 1972, depois da destruição por um raio, para que a memória se não perdesse. E voltemos a ouvir Cesário Verde, por entre jacarandás e o Tejo: "Fui ontem visitar o jardinzinho agreste, / Aonde tanta vez a Lua nos beijou, / E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, / Soberba com um sol, serena como um voo."

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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